24 de ago de 2004

A terra das ilusões perdidas

Opa, boa tarde. Desculpe incomodar, mas pode me emprestar um cigarro?

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É, eu sei que faz mal. Na verdade, eu não fumo.

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Não posso. Rinite alérgica. Sabe, os frutos da evolução humana. Doenças respiratórias crônicas na maioria da população urbana.

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Eu estou um pouco nervosa. É a minha primeira vez aqui, sabe?

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É, e olha que pela minha idade, eu já deveria ter vindo aqui algumas vezes. A "terra das ilusões perdidas"...meio tétrico, né? Parece frontal de hospicio ou coisa do tipo...

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Não, nem é uma em particular. Vim procurar por todas.

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Sim...Sabe, um dia eu acordei e pensei: onde será que foram parar as ilusões da humanidade? Aí, peguei um ônibus e saltei aqui. O lugar nem é tão ruim quanto pensei, aliás...

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Mais iluminado, com árvores. Sei lá, meio que esperava um cenário de pesadelo...

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Ninguém quis vir junto, não. Acharam besteira esse negócio. Viviam bem do jeito que estavam vivendo, para que mudar?

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Como assim? Porque eu não fiquei lá também?

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Ah, porque eu não estava satisfeita...Aqui é sempre frio desse jeito?

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Hum, compreendo. Na verdade, sempre achei que faltava algo. Primeiro pensei que fosse comigo, mas cheguei a um ponto em que tinha tudo. Era plenamente feliz. Mas ainda me sentia insatisfeita. Por isso, raciocinei que só poderia estar relacionado ao resto do mundo. Daí para notar que as ilusões tinham sumido foi um pulo.

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Pois então. Isso que é o mais engraçado. Quando cheguei aqui e fui procurar o encarregado, ele disse que as ilusões que se perdem não vem para cá. Ficam onde estavam mesmo, mas adormecidas, quase em coma, esperando uma chance de reviver. Então, vou voltar de mãos vazias.

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Mas valeu o passeio, né? Opa, aquele é o meu ônibus. Com licença, foi um prazer.