12 de jun de 2009

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13 de abr de 2008

Os olhos de Joana



A guerra explodia nas terras francesas, divididas entre Henrique, o jovem soberano inglês cujo pai arrancara seu direito sucessório das mãos de um rei fraco e insano, e o filho desse mesmo governante enlouquecido, Carlos de Valois, o Delfim, recém-coroado por aqueles que o apoiavam. Entre os dois, estava Felipe, o maior dos nobres franceses, o primeiro dos pares de França, que entregara sua lealdade ao herdeiro da família Lancaster para aliviar a traição que se abatera sobre sua casa.

Porém, mesmo entre os nobres, a casa da Borgonha não fora a única a aliar-se aos ingleses. Famílias antigas dividiam-se, de acordo com o seu interesse mais imediato, nenhuma delas com a determinação dos borgonheses em retirar os Valois do trono.

Abaixo dos grandes, soldados combatiam. Alguns eram mercenários, outros foram convocados pelo poder dos senhores sobre eles... E poucos, muito poucos, lutavam por acreditarem que era o certo a fazer, como Joana.

O silêncio era o companheiro dela em sua prisão solitária. A ausência dos sons costumeiros das batalhas confirmava o seu presságio, as suas tropas haviam perdido a escaramuça, sem comando depois que caíra prisioneira. Presa por cordas em um poste de madeira, pouco poderia fazer senão aguardar o destino. Sua vida resumia-se a essa espera pelo que aconteceria desde que deixara sua pequena aldeia.

Quando finalmente sons ressurgiram, a porta de sua prisão foi aberta e ouviu passos ecoando no chão de pedra.

- Pois então, feiticeira. Tua loucura acaba aqui.

Amarrada, fez a única coisa que pode. Ergueu os olhos, azuis, e encarou seu inimigo. Nos meses que passara convivendo com os soldados do exército francês, ouvira histórias aterradoras sobre o seu captor. Felipe de Borgonha era retratado como um homem enlouquecido, vivendo apenas para vingar a morte de seu pai, assassinado onze anos atrás, traído em uma trégua pelo então delfim. Unira-se aos ingleses e os exércitos da Borgonha e da Inglaterra devastavam as terras que se mantiveram leais ao homem que traíra o duque borgonhês. Joana estivera sempre do lado do delfim que ajudara a coroar, pois como os seus demais seguidores acreditava que a sucessão não poderia ser decretada pelos homens. Apenas Deus teria o direito de escolher os reis, e o fazia pelas famílias reais. Assim as vozes afirmaram.

Viu, porém, um homem de olhos envelhecidos, pesar no semblante, o luto na face e na roupa. Este era Felipe da Borgonha, traidor do reino, aliado dos ingleses. As vozes em sua mente já tinham lhe dito, por várias e várias maneiras, que ele seria o senhor do seu destino.

- Joana de Donremy, capitão do exército do Delfim Carlos, dirás algo em tua defesa?

Baixou o olhar. Queria ainda ter os cabelos compridos para esconder o rosto, mas os cortara para poder lutar melhor. Sentiu a mão do duque levantando seu queixo.

- És apenas uma menina. Não me obrigues a isso. Bedford quer queimar-te como bruxa. O Bispo de Calais irá assinar a sentença. Declare que foste obrigada pelo Delfim a mentir sobre ser enviada de Deus.

Endireitou o corpo e fixou novamente seus olhos nos do nobre.

- Não posso e não o farei, senhor. Eu fui convocada pelos anjos do Senhor a trazer a paz para o reino da França. Tenho a missão de lutar contra os inimigos do rei.

- E eu sou teu inimigo, Joana? Sou tão francês quanto tu. Servi ao pai do teu senhor, assim como meu pai antes de mim. Agora, sirvo ao herdeiro legítimo e reconhecido, o jovem rei de Inglaterra. Teu Delfim é um usurpador...além de um assassino covarde.

O olhar de Joana tornou-se um pouco mais suave.

- Senhor, o duque João morreu há dez anos. Ainda não perdoaste a França?

Foi a vez dele cerrar os olhos. Ela viu a dor tirar a máscara de serenidade e temperança, trazendo o desespero. João Sem Medo fora morto em Paris, numa emboscada encomendada pelo delfim, deixando o seu único filho homem como herdeiro da maior vastidão de terras comandada por um Par da França. E o coração fechado em luto

- Não perdoei o monstro que chamas de rei.

- Deve a terra pagar pelos crimes daquele que a governa? – em sua mente, as vozes sussurraram o seu fado. – Que seja, senhor. Entrega-me ao falso regente. Siga o teu destino e me deixe seguir o meu. Porém, digo-te...

Chamas subiram aos olhos de Joana, e Felipe recuou instintivamente, desviando o olhar.

- Antes de mais um verão, casarás com a filha de um rei, um rei bastardo mas poderoso, e ela te dará três filhos, um deles será seu sucessor... A paz reinará entre o duque e o delfim, até que seja a hora da Queda da casa mais poderosa da França. Um dos teus, ó Felipe, será Imperador, e dirão que foi tão poderoso que o sol jamais se pôs sobre seu Império. Terá o nome de Carlos, rei e senhor da Europa.

Felipe recuou ainda mais.

- És realmente uma feiticeira, Joana. Enguerrand... – O jovem secretário que permanecera oculto apareceu. – Chame o senhor de Monsaint. A bruxa será entregue ao duque de Bedford, com meus cumprimentos. E jamais diga uma palavra a ninguém sobre o que aconteceu aqui.



No dia em que Joana, dita D’Arc, queimou por ordem do Bispo de Calais, Felipe, O Bom, duque da Borgonha, da Flandres e do Brabante, estava em Dijon com sua esposa Isabel, infanta de Portugal. Olhavam para o pequeno Antoine, uma criança fraca que provavelmente não sobreviveria. Felipe estava tranqüilo, pois lembrava da profecia da feiticeira e sabia que teria um herdeiro.

Dois anos depois, Joana nada mais era do que uma fraca lembrança. A guerra amainara e o antigo Delfim procurava Felipe, interessado em uma trégua. Nas noites frias do inverno em Dijon, o duque embalava seu pequeno filho. Carlos dormia, e seu pai sonhava. Com as glórias da coroa, e com a queda da casa real francesa. Não podia saber que a queda seria de seu filho, e demoraria mais três gerações até que o último cavaleiro borgonhês assumisse a glória imperial, com o nome de Carlos V. Não olhara até o fim nos olhos de Joana.

31 de dez de 2007

Conto estranho de Ano Novo

Todas as coisas ruins deveriam acabar no último minuto do ano, para que o Ano Novo trouxesse novidades boas e felicidade. Era nisso que Ana Clara acreditava. E fora pensando nisso que, correndo o risco de tomar uma surra imensa, pegara uma das armas do padrasto, policial militar.

Respirou fundo, pensando bem nos passos do seu plano para começar bem o ano. Iria finalmente libertar-se dos socos, das cintadas... e das mãos sujas do padrasto. Neusa, a mãe, ignorava tudo isso, trabalhava demais e tinha mais dois filhos para cuidar. A tristeza silenciosa da mais velha significava pouco, quase nada, para ela, que passava os dias fora, cozinhando em um hotel da Zona Sul.

Esse ano, não iam assistir a queima dos fogos na Penha, pois o menorzinho estava com pneumonia. A mãe estava no quarto dos dois meninos, numa cama improvisada no chão, atenta a qualquer febre ou tosse. A ceia de Reveillon estava na mesa: frutas, frango assado, um tender, arroz. Ana Clara deveria esquentar a comida e servir o padrasto. E era o que a menina de quatorze anos pretendia fazer. Quando o velho estivesse na frente da tv, acompanhando a contagem em Copacabana, ela iria até o quarto, pegar o velho 38... Sabia que podia contar com os vizinhos, que estouravam os fogos sem respeitar o começo do ano. Mesmo agora, enquanto ainda passava o Jornal Nacional, o barulho estava quase insuportável.

Depois do velho morto, estendido no chão, Ana Clara ia pegar sua mochila e sumir. Daria um jeito de ir para a casa dos avós em Miracema e desaparecer no interior do estado, trabalhar onde desse, mudar de nome, de vida. Ano Novo, Vida Nova. A mãe e os irmãos ficariam melhor, sem o homem horrível assombrando suas vidas e com a pensão que a viúva ia receber.
Bateram na porta e ela teve um sobressalto. Só faltava ser uma das vizinhas, querendo fazer companhia à dona Neusa ou coisa do tipo. Não era. Uma completa desconhecida estava ali. Cabelo castanho claro, gorda, com mais de vinte com certeza. Usava óculos, um pouco tortos, e estava vestida de preto, apesar de todo o calor que fazia. Entreabriu a porta, certa de que era um engano, sentindo-se segura com a correntinha.

- Pois não?

- Oi, Ana Clara, tudo bem? Será que eu posso falar um instante com você?

- Desculpe, dona, não posso deixar você entrar. Não posso falar com desconhecidos...

- Ah, mas eu te conheço, Ana; e até sei o que você está escondendo debaixo da mochila no quarto.

O choque fez Ana Clara agir de forma automática, abriu a porta e guiou a moça até a sala. A estranha pediu um copo d’água e quando bebeu um gole, começou a falar.

- Nossa, que alívio. Calor absurdo... Bem, prazer em conhecer, Ana, meu nome é Ana Cristina e eu vim parar aqui para impedir você de estragar a sua vida.

Nada que Ana Clara falasse ia ser muito útil, então ela resolveu ficar quieta e escutar.

- Assim, eu estava escrevendo a sua história. Sim, hoje, 31 de dezembro... Parece meio ‘loser’, mas veja bem: estou tomando antibiótico, então nada de bebida. Meus pais, coitados, trabalharam o dia todo e dormem até dar 11:40, mais ou menos. O meu filho está brincando ‘brincadeiras de menino’, o que me exclui... – Ela cerrou os olhos, sinal de descontentamento – Ah, a única pessoa online com quem eu gosto de conversar está trabalhando e vi o tanto de tempo que demorou para aquele homem voltar a desenhar então... Resolvi escrever a sua história, uma história triste, pungente... Podia me dar mais água, por favor?

Aturdida, Ana Clara serviu mais um copo.

- Hum, bem gelada. As delícias do subúrbio... Sabe, eu sempre gostei mais da Zona Norte do Rio, o pessoal da Zona Sul é tão metido. Mas não troco Niterói pelo Rio. Voltando: a sua história era para ter uma fada ou um espírito bom desses qualquer, que ia bater em sua porta e lhe dizer como é bom viver, etc etc etc, você iria se comover, conversar com sua mãe e acreditar que a vida é mágica por causa disso. Mas, caramba! – e bateu com o copo na mesa, deixando Ana Clara preocupada. – Por que as coisas boas em uma história tem que acontecer por intermédio de um ser sobrenatural? Ah não! Aí, resolvi: eu vinha pessoalmente resolver o caso. Aliás, com licença.

Com passos decididos, ela foi até o quarto de Ana Clara, pegou a arma, sem sequer hesitar. Abriu o tambor e tirou as balas.

- Pronto, esse caso está resolvido. Quanto à senhorita, mocinha... Você parou para pensar na sua mãe? Em como ela ia ficar?

- Sim, eu...

- Não, não pensou, oras! È sua mãe e ia morrer de saudades e preocupação!

- Mas ela nem liga pra mim!

- Sem emice, menina! Claro que liga, mas você tem dois irmãos menores que não sabem se expressar direito. Ela espera que você, caso tenha algum problema, fale para que ela te ajude. E você, falou?

- Não...

- Mãe não é adivinha, guria. É duro perceber isso. Vai lá e conversa... ela está acordada por causa do Tonho.

- E meu padrasto?

O sorriso no rosto da mulher estranha gelou o coração de Ana Clara.

- Seu padrasto vai descobrir o porquê da minha fama de malvada. E duvido que moleste mais alguém por muito tempo.
E Ana Clara foi.

No dia seguinte, a mãe pediu divórcio, o que aumentou o escárnio geral, afinal o PM durão amanhecera amarrado em um poste, todo machucado, cheio de equimoses e com uma placa: ‘Na verdade, eu queria era ser transformista mas virei P.M.’

Para todos os leitores do Doces Pensantes, um 2008 sensacional!!!

29 de dez de 2007

O sino


Parada no meio da praça central da vila em que sempre morei, contemplo o sino de bronze da igreja. Lembro da tarde de verão quando foi trazido para substituir o velho sino, já rachado, com um som tão tétrico que afastava as pessoas da igreja e portanto de Deus.

Meu pai ajudara a colocá-lo ali. Fora homem respeitador dos mandamentos, sério, sempre auxiliando a igreja. Sua morte deixara um buraco muito grande naquele pequeno lugar.

O zumbido das vozes me cerca, mas ignoro. Prefiro ficar perdida nos meus pensamentos, contemplando o sino, sinal daquele passado que está cada vez mais distante, a participar da pequenez da vida cotidiana da aldeia, cheia daquelas pequenas mesquinharias e intrigas. Eram todos iguais, capazes de vir chorando pedir um favor e no outro dia sussurrar mentiras nos ouvidos dos vizinhos, envenenando almas.

Eu nunca fizera isso, até porque as vidas dos moradores pouco me interessavam. Jamais me furtei a ajudar quem precisasse, claro está. Porém, não os procurava para nada, deixava que eles viessem a mim. Minha companhia eram os livros em que meu pai, com muito esforço, me ensinara a ler; os bordados que aprendi com minha mãe, falecida meses antes dele, e a gata, já bem velhinha, herança que viera com a casa que herdei. Vivia minhas horas pelo soar do sino.

O sol esquenta. O meio-dia aproxima-se, hora em que o sino irá badalar com toda a sua força. O ruído do povo ao meu redor cessa para que uma única voz comece a ressoar. Voz conhecida de muitos anos. Por muitas vezes, ouvira-a conversando com meu pai, discutindo os problemas daquela pequena paróquia. Não poderia imaginar que aquela voz tão grave e serena se voltaria com toda a força contra mim.

- Por todos os crimes de feitiçaria relatados pelos habitantes desta aldeia, eu a sentencio à morrer na fogueira quando o sino terminar de bater o meio-dia. Algo a dizer?

Não respondo. Já argumentei, negando as acusações. Cansada da discussão, aleguei que deveria ser julgada por um tribunal. Mas não fui ouvida. Estão convencidos que usei de artes da feitiçaria para matar meus pais, auxiliada por um demônio que habitaria a velha gata...

O sino toca. O som é límpido como da primeira vez em que soou nessa praça. Um toque que me lembra a infância e tempos mais felizes. A multidão aproxima-se, tochas em punho. Sequer tento me soltar da estaca em que estou amarrada há dois dias. No meu íntimo, peço que se realmente existir magia que ela me auxilie e me deixe fugir. Se me for permitido viver, naquele momento eu juro me tornar aquilo de que me acusam: uma feiticeira.

Mas quando escuto o toque final do sino de bronze, sinto as primeiras labaredas encostarem nos meus pés nus.

Conto en español

Numa grande gentileza de Sergio Gaut vel Hartman, 'O homem bomba' aparece na revista online Sinergia:

http://www.nuevasinergia.com.ar/cuentos_30ficcionesbreves.html

8 de out de 2007

Vida de estagiária

(Conto da Intempol, publicado no antigo site do projeto. Foi traduzido pro castelhano e publicado na revista Axxon, sendo o primeiro conto intempoliano a aparecer em outra língua.)
Com um suspiro cansado - e aliviado - arrancou os sapatos. Sabia que era teimosia ir de salto fino, mas as pessoas já a olhavam por cima mesmo com os dez centímetros a mais. Imagina de sandalinha rasteira... Os pés na água quente com sal grosso, a tv ligada em algum programa genérico só para disfarçar a solidão.
Pendurou-se no telefone.
-Oi, querida! Como estão as coisas? Ah, por aqui tudo na mesma. Sim, ainda estou naquele maldito estágio que você me arrumou na Empresa. Isso. Não tenho te visto por lá... Entendo. Como? Se eu estou gostando de lá? Como posso gostar? Você já foi estagiária na Intempol? Claro que não, começou direto como secretária, né?
Fez uma pequena pausa, mexendo os pés na água, agora já morna.
- Para você ter uma idéia, vou contar como foi meu dia. Começou normal, comigo correndo que nem uma louca desesperada. Eu sei, eu sei... Mas não adianta... Estou há dois meses na Empresa e não estou acostumada a chegar na hora, mesmo atrasada. Enfim...Claro que nem bem cheguei, já tinha agente gritando comigo. "Cadê o café, Ana?", "Trouxe o relatório Z-4567?", "Ana, vai ao crono-arquivo e pega a pasta MMM 453?", "Liga pro Comissário urgente!". Cara, assim, tudo bem que eles lidam com o tempo e tal. Eu sou uma só! E esses relatórios são de amargar! Você acha o que? A estagiária fica com a rebarba! As missões interessantes, misteriosas, que envolvem artefatos poderosos, dessas que são a alma da Empresa, eu não sinto nem o CHEIRO! Depois de fazer café - três garrafas térmicas, porque um gosta forte, o outro fraco e tem sempre alguém no meio termo - comecei a rever as fitas de uma missão para começar lá o tal relatório. Você não vai acreditar, a Empresa mandou um agente à Pré História porque uns idiotas fizeram um safári... e pisaram em uma borboleta! Acredita nisso? Eles mataram um tiranossauro rex, e o agente teve que salvar a BORBOLETA! Sentiu o nível? Tem coisas piores... Esse foi o do dia.
Tirou o pé esquerdo da água. Continuou a falar no telefone, apoiando o bocal no ombro, enquanto massageava os dedos doloridos.
- O que? O ruivo bonitão? Claaaaaaaro que ele falou comigo. Duas frases. "O relatório Z 4567 está incompleto" e "Eu prefiro meu café amargo, por favor". Você acha que um homão daquele, agente nível 4, vai olhar pra mim? Não tenho cacife pra tudo aquilo, é areia demais pra minha caçamba. E nem adianta pensar em fazer duas viagens. Pois então, depois desse dialogo amoroso, eu achei que poderia parar e comer a minha marmita. Estava eu indo calmamente pro meu cubículo, o de número 254, e o que aconteceu? Uma neandertal brotou do nada! Simplesmente surgiu! Eu não consegui desviar a tempo, e lá fomos nós; eu, a macaca e minha marmita, pro chão! Alguém começou a gritar "Vejam se ela está bem". Eu fiquei até comovida, ia me levantar quando percebi que a preocupação deles era com a coisinha, fugida de algum lugar, sei lá. Quer dizer, eu sou atropelada por Conga, a mulher-gorila, e todo mundo quer saber se ELA está bem? Típico, eu diria. Ah, adivinha quem limpou a sujeira? Claro, eu. Perdi minha hora de almoço nisso. E não, quando se é estagiária, tempo não é algo relativo. Eu não tenho acesso a caixas temporais e coisas do tipo.
Trocou o pé pelo direito. Suspirou.
- De tarde, continuei no mesmo ritmo. Revisar um relatório imbecil de outra missão idiota, envolvendo uma superpopulação de coelhos, fazer MAIS café, ser novamente ignorada pelo ruivo bonitão... Ah, desculpe. Ele falou comigo. Reclamou que o café estava amargo demais. Tive que arrumar três salas de reuniões. Esse pessoal faz mais bagunça do que um monte de crianças. Largam arquivos em cima da mesa, cinzeiros transbordando... E claro, apesar de ter me parecido que passei dias lá dentro, foram exatas oito horas. Nem um nano-segundo mais. E aqui estou. Vou descongelar a comida, jantar e colocar leite pro gato. Beijo, até amanhã.
Na sede da Intempol, no cubículo 254, a secretária eletrônica dava um bip, indicando o fim da gravação.

Publicado no Site da Intempol (2005)Traduzido como 'Vida de Pasante' na Axxon (2006)

4 de out de 2007

Ponteiros


“O ponteiro pequeno marca a hora. O grande, os minutos.”

A mãe repetira incansável por anos a fio, tentando ensinar a criança que todos diziam ser lenta demais para aprender.

E a cada vez que dizia, o estapeava. “Pra aprender mais rápido”.

Ele aprendeu. Apanhou. Sofreu. Foi humilhado.

Mas aprendeu.

Olhou o relógio no pulso da mãe.

Limpou o sangue que secara no mostrador.

O ponteiro pequeno no dois, o grande no doze. Parado, marcando duas da manhã, a hora em que a matara.

Arrancou o relógio, jogou-o no chão.

Descarregou as balas restantes no aparelho. Nunca mais olharia um relógio.

1 de set de 2007

Quando faltam palavras...

Angels with silvery wings
Shouldn't know suffering
I wish I could take the pain from you

Precious - Depeche Mode

Deveria existir uma lei no mundo em que todas as verdadeiras histórias de amor deveriam ter finais felizes; mesmo que seja o básico 'e viveram felizes por muito tempo'.

Alguma força cósmica teria que impedir absurdos; alguém tinha que dizer 'Olha, isso não pode, vai lá e escreve isso de novo porque o certo é eles ficarem velhinhos juntos, vendo o sol se por...'

A vida tinha que ser justa. Pessoas bacanas só deveriam morrer beeeeem velhinhas. E pessoas bacanas casadas com pessoas bacanas, ah, casais assim tinham que ficar juntos para sempre.

Mas não é assim, e nunca vai ser.

Aí, você dá de cara com a crua realidade. E sabe que alguém que você admira e gosta muito está sofrendo. E não há nada que você possa dizer ou fazer para amenizar essa dor.

Ah, Fal, eu lamento tanto...

Paffo, também sinto muito por ti.

26 de ago de 2007

Um gostinho de Finisterra

(Estou escrevendo -well, tentando escrever - um romance de 'fantasia-história-alternativa-valsa-do-lusitano-pancada' intitulado Finisterra. Até agora, escrevi uns dois capítulos e mais uns trechos esparsos. Abaixo, uma sinopse-teaser-propaganda e um trechinho do que será um dia o quinto capítulo)
***
Finisterra – Histórias do Império que poderia ter sido.

Um período de calma atravessa o Grande Continente. Os povos do Norte não mais ameaçam as fronteiras do Danu. A paz finalmente foi firmada entre Albion, Francia e Burgúndia. Porém, do confim ainda desconhecido do mundo, uma ameaça surge.

Os Corte-Real, eminentes navegadores a serviço de Dom Manuel, partiram em expedição ao misterioso fim do mundo. Mas não retornaram. Anos depois, uma mensagem é encontrada, com um aviso dos irmãos: os habitantes de onde o mar acaba querem tomar para si as terras do Grande Continente.

Como Imperador da Ibéria Lusitânia, cabe a D. Manuel resgatar seus súditos e impedir essa terrível invasão. Para isso reúne uma imponente esquadra, composta por homens dos diversos reinos.

E como todo o grande feito precisa ser lembrado, o cronista-mor do Império, Rui de Pina, é enviado nessa expedição, junto com seu assistente, Pero de Caminha. Por missão, ambos devem retratar as glórias e as aventuras dessa esquadra. Mesmo a custo de sua própria vida.
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Foi a voz de Nimue que deu o alarme.

- Comandante, uma criatura vinda de Ocidente!

Rui, assim como os outros, virou para olhar na direção indicada. Embaixador calejado, não estranhava quase nada. Na verdade, já esquecera da última vez em que algo lhe causara estranhamento. Nem mesmo as mais fantásticas maravilhas afetavam tanto o seu coração a ponto de tirar o ar do cronista. Já vira sereias, licantropos, harpias, dragões, dragonetes, cavalos alados e de chifres, entre muitas outras criaturas.

Porém, a sua frente erguia-se uma criatura horrenda. Saiu da nuvem de escuridão que tinham visto no horizonte e aproximava-se com uma rapidez inacreditável. Seus contornos eram indefiníveis. Era escuro, pois a luz nele sumia, seu hálito chegou até a embarcação e fez com que Rui sentisse uma forte vertigem.

O monstrengo que saíra do fim do mar voou por três vezes ao redor da nau, chiando como um morcego infernal. Quando falou, sua voz pareceu querer furar os ouvidos dos presentes.

- Quem é que ousou entrar nas terras que não desvendo, meus negros tetos do fim do mundo?

Rui tremeu e escutou o comandante Cabral dizer, a voz incerta.

- Viemos a mando do glorioso Imperador D. Manuel, filho del-Rei D. João Segundo!

A sombra pestilenta não retornou para o lugar de onde viera, e novamente deu três voltas, mais próxima dessa vez. O cronista pode perceber contornos de um corpo largo, e placas de sujeira e imundícias. E outra vez, a voz incômoda ressoou.

- De quem são as velas onde me roço? De quem as quilhas que vejo e ouço? Quem vem poder o que só eu posso, que moro onde nunca ninguém me visse e escorro os medos do mar sem fundo?

A voz fraca de Pero elevou-se trêmula para se fazer ouvir sobre o barulho da respiração da besta voadora.

- Viemos a mando do glorioso Imperador D. Manuel, filho del-Rei D. João Segundo!
E mais ainda o monstrengo aproximou-se. Rui lembrou de algo, ensinado por Nimue no início dessa jornada. Pois que a sacerdotisa de Avalon havia lhe explicado o poder tríplice em relação a criaturas mágicas. Antes que o monstro completasse três voltas pela terceira vez, o cronista usou sua voz, treinada em diversas embaixadas.

- Nesta nau, sou mais do que eu. Pois sou um povo que quer o mar que é teu. Mais do que o mostrengo, que teme a minha alma e roda nas trevas do fim do mundo, obedeço a vontade de meu senhor. Assim iremos prosseguir, pois viemos a mando do glorioso Imperador D. Manuel, filho del-Rei D. João Segundo!

A escuridão fétida rugiu, um bramido pavoroso que gelou a alma de todos. Abriu suas asas de negrume e podridão, avançando em direção à pequena nau.

6 de ago de 2007

Lendas do deserto


No topo da montanha, uma árvore solitária chama a atenção da caravana. A lua serve de pano de fundo para seu contorno retorcido. Um dos mais velhos sorri ao ver o quadro inusitado.

-Era verdade.

O companheiro mais próximo, ocupado em não deixar os animais saírem de fila, pergunta.

-Como?

-Antes do mundo conhecer o Deus Único e seu profeta, o deserto era habitado por seres estranhos. Os homens, ignorantes, cultuavam essas criaturas como deuses. Era chamados djins e ligavam-se ao seu ambiente. Alguns se conectavam com o vento, outros com o sol, assim como havia aqueles que se uniam à terra e os que eram unos com as plantas raras do deserto. Espécies diferentes que viviam em paz, segundo regras específicas. Muitas não ficaram conhecidas pelos homens. Mas algumas se tornaram famosas. A mais rigorosa, a que jamais poderia ser quebrada ou desrespeitada era proibindo a mistura dos djins. Cada um deveria permanecer com os seus. Para a maioria deles, era fácil. Cuidavam dos assuntos de seus domínios, pouco importando os demais. Só que, na tribo dos djins das plantas, havia a mais bela entre todos. Seu nome era Astee, e dançava no meio das plantas com a liberdade daqueles que não sabem serem observados. Escondidos da presença mágica da aura de Astee, dois a admiravam. Quren era filho do Vento. Olhava para a moça, e imaginava uma escrava dobrando-se aos seus desejos. O outro admirador da beleza da dama era Silian, que caminhava na terra. Este se embevecia no sorriso de Astee e sentia vontade de acompanhá-la em sua dança. Receoso de quebrar as regras, ficava satisfeito por vê-la feliz.

-E o outro?

-Os ventos são inconstantes. Não se pode prever seus movimentos ou saber o que estão sentindo. Quren desejava Astee, mesmo sabendo que não poderia possui-la. Decidiu que iria arriscar. Enquanto a doce criatura caminhava em um gramado, saiu de seu esconderijo. Correu atrás dela, levando consigo a força dos ventos, destruindo as plantas em seu caminho. Astee buscou refúgio. Mas ali não havia como se proteger dos ventos enlouquecidos de paixão. Ao ver o desespero de sua amada, Silian não se conteve. Comandou a terra para que se fortalecesse como rochas e protegesse a djin nas encostas rochosas, no entanto pouco adiantou. A fúria do ar aumentava cada vez mais. Em um último sacrifício, Silian juntou sua própria essência à das pedras. E Astee fincou seus pés nas saliências, tentando não ser levada. Quanto mais segurava, mais o ar rodopiava. Reunindo suas últimas forças, transformou-se em uma das plantas que tanto amava. Quren continuou a soprar, entortando seu novo corpo. A força de vontade da djin, combinada com o amor que Silian lhe tinha, resistiram. Os dois uniram-se no meio do deserto.

O caravaneiro olhou novamente. E desta vez pareceu distinguir nas rochas um rosto, e nas curvas da árvore algo feminino.

5 de ago de 2007

Oração Funerária Wiccana

Dentro da série 'Projetos da Ana', eu tenho um que eu intitulo 'Pequenos contos pagãos', no qual eu entremearia ficção e texto explicativos sobre diversos aspectos do paganismo.
Dos rascunhos para esse livro, tem um que não se aplica ao que pretendo. Escrevi às pressas, num surto de criatividade meio louco. Emprestei para grandes amigos wiccanos usarem, e estou deixando aqui para quem quiser usar. Só citar a fonte.

Oração funerária wicanna

Pois sou o Primeiro, e cheguei para observar a sua última hora.

Sou e sempre fui. O Deus dos Chifres, o companheiro da Grande Mãe, seu Filho, seu Marido, seu Pai.

Já fui a Caça e o Caçador. Conheço a dor da morte e a doçura da vitória.

Velo pelos do seu sangue desde que se tornaram homens e desceram das árvores. Eu estive nas cavernas da aurora do Homem. Minha voz soava no trovão, meu calor emanava do fogo. Quando, aterrorizados e sozinhos, clamaram por proteção, fui eu quem os atendi.

Por todo este tempo, eu andei lado a lado com todos vocês.

Por isso, aqui estou. Na sua última hora, acompanhando-o em sua jornada final, para a Terra do Primeiro e Único Verão.


PS: Não, não sou wicca.

25 de jul de 2007

Deus embaralha, o Destino corta

Eu duvido que Deus jogue dados com o Universo.

Mas falando sério, ao olhar a minha vida, eu tenho a impressão de que rola pelo menos um poquerzinho nos sábados à noite.

Mas nem é isso o que mais me irrita.

O pior de tudo é quando estou finalmente feliz e vem o Destino com aquela proposta.

- O dobro ou nada.
E é aí que eu vejo que Deus, além de não saber quando parar, tem um azar danado com cartas.

30 de jun de 2007

Os loucos de Lisboa - Ruy Veloso e Ala dos Namorados

Mudamos muita vez de calendário
Como o café mudou de freguesia.
Deixamos de tributo a quem lá pára,
Um louco a fazer-lhe companhia.

Sempre a mesma posse, o mesmo olhar.
De quem não mede os dias que vagueiam
Sentado lá continua a cravar
Beijinhos às meninas que passeiam.

São os loucos de Lisboa
Que nos fazem duvidar.
A Terra gira ao contrário
E os rios nascem no mar.

Notícias

- Na edição especial de 'Desvendando a História' de julho sobre as Revoluções, tem um box meu sobre a Corte de Versalhes. Já recebi o pedido de uma nova colaboração, sobre Júlio Cesar.

- O Homem Bomba tornou-se o conto mais visitado do site do CLFC

- A resenha sobre MonteCristo já está entre as cinco mais lidas do site

- E a Dama de Shalott foi o terceiro conto mais visitado de março no Hyperfan

A todos, de coração, meu muito obrigada.

11 de jun de 2007

Out of order.

O doce para qual você ligou encontra-se fora da área de cobertura e não sabe quando nem se volta.

Boa sorte na sua próxima tentativa.

4 de jun de 2007

Uma crônica

O que sobrou do céu

Para P. H.


Vocês realmente já olharam as estrelas?

E não adianta dizer que todas as noites, do alto da janela do seu apartamento no meio do Rio de Janeiro – ou qualquer grande cidade, não importa – empinam os narizes no ar cheio de fumaça e vêem uma meia dúzia de pontinhos piscando atrás do fog-smog nosso de cada noite. Isso, meus caros, não é olhar estrelas, é apenas entrever um pedacinho mínimo de sua beleza.

Falo de realmente ver estrelas. De parar, olhar para cima e perceber que o céu é realmente da cor do veludo negro e que aquele monte de pontinhos brilhantes não podem ser outra coisa senão pequenos diamantes bordados naquele tecido quase cremoso por artesãos mais habilidosos do que os nossos. De conseguir perceber o enfumaçado das nebulosas, de conseguir desenhar as constelações, de se perder no emaranhado daquelas luzes que estão tão distantes que toda uma vida não seria suficiente para alcançá-las.

Pois é, perdemos o céu, principalmente o noturno. De dia, a luz ainda consegue ultrapassar as barreiras de fumaça e poluentes, o sol força sua entrada e por entre prédios e avenidas, conseguimos ver o que sobrou do céu.

Porém, a noite nos foi roubada. O céu estrelado, aquele manto negro que tanto assustou aqueles que vieram antes de nós, é um grande desconhecido. Mal o conseguimos entrever, ofuscados que estamos por luzes, letreiros, faróis... E por nós mesmos.

Para ver esse céu, é preciso sair da agitação que nos cerca, nas vidas sem tempo. Afastar-se de tudo o que conhecemos, deixar para trás tarefas que clamam por nós, obrigações, deveres, elos. É tentar não sermos mais nós mesmos. Buscar algo que está há muito tempo adormecido, esquecido, quase morto. Precisamos escarafunchar dentro de nós mesmos memórias ancestrais, do tempo em que tínhamos medo e reverenciávamos a sombra e a escuridão.

Porque para poder realmente olhar as estrelas temos que lembrar que somos feitos da mesma matéria sideral que aquelas imensas bolas de gás penduradas no cosmo. E que nem sempre a escuridão é a ausência de luz. Que somos maiores que nossas agendas, compromissos, direitos civis. Somos mais do que nossas filiações, nossas vontades, até mesmo que nossos quereres.

Que ultrapassamos mesmo a soma de tudo isso, mais nossos amores, amigos e famílias, com nossas recordações, ganhos, perdas, lucros, sucessos e fracassos.

Para ver estrelas, você às vezes precisa fazer uma loucura. No meu caso, voar dois mil quilômetros, em direção ao centro do país, para encontrar alguém que nunca vi pessoalmente. Superar um trauma absurdo e andar de moto, coisa que jurei jamais fazer. Confessar segredos a uma pessoa que ao mesmo tempo que é um conhecido de pouco tempo, tive certeza que é um amigo de muitas e muitas vidas.

Em cima de uma ponte, no meio do Brasil, ouvindo o choro de um rio represado, eu finalmente olhei para cima e vi estrelas. Por um segundo, não compreendi o que se passava, até que meus olhos conseguiram captar toda a beleza e a majestosidade do céu estrelado. Não consegui sequer chorar ante tanta grandeza.

Mas lembrei do que sou feita, do que fui feita, aliás. Afinal, de uma forma ou de outra, também somos todos estrelas, apesar de termos perdido o céu.

16 de mai de 2007

La cour, le roi et la revolution

Ai ai.

Tenho que escrever um pequeno texto sobre a corte de Versalhes. Mas é pequeno MESMO. Três mil caracteres com espaços. Meu esboço está com 3100... É, não vai ser tão fácil quanto eu pensei.

Anyway, estive pensando: vale a pena escrever por nada? Quer dizer, nesse país não se pode pensar em ganhar dinheiro escrevendo. Pode vir a acontecer, mas não é certo, so... Melhor não criar falsas esperanças.

Então, a gente escreve para ter um único retorno: o do público. Ok, eu sei que esse não é o blog mais comentado do mundo. Mas de forma geral, as coisas que publico aqui e ali acabam tendo uma boa recepção e o mais importante, geram comentários, o famoso e almejado feedback.

Há, no entanto, uma exceção: para ajudar um amigo, estou colaborando com a revista de uma comunidade no Orkut. Escrevo a parte cultural, um conto e na última edição coloquei uma crônica. Até agora, foram 4 edições... e se recebi dois elogios (porque há diferença entre comentário e elogio) foi muito. Ok, talvez eu esteja exigindo muito de uma comunidade de pegação e de interação social para pessoas fora do padrão social de beleza vigente (i.é, gord@s) . Só que pra mim, crônica é algo novo. Realmente difícil... pedi na comunidade para que as pessoas falassem o que acharam.

Silêncio sepulcral.

Nada. Nem uma linha.

Pergunto-me: valhe a pena isso? Porque escrever 'por encomenda' nunca é fácil. É sempre algo não espontâneo.

Estou começando a pensar seriamente em não insistir. Escrever só para preencher 'páginas virtuais' não está nas minhas perspectivas. Se ninguém comenta nada, é porque ou não quiseram ler (e daí estou tendo trabalho por nada) ou leram e não se incomodaram com aquilo, nem no bom nem no mau sentido. Se é assim, novamente: escrever pra que?

Enfim....

12 de mai de 2007

Alguns comentários

- O Marco Bourguignon, editor da Scarium e pai do Thiago, colocou uma nota chamando para lerem o 'Chiaroscuro', o que aumentou consideravelmente o número de visitas daqui. Merci beacoup ao Marco e a Scarium como um todo, que vem me incentivando e publicando.
- Para minha grande surpresa, o pequeno, curto e anedotico conto publicado no site do CLFC, O Homem-bomba, é o segundo mais visitado, com mais de 230 visitas. Só me resta agradecer a quem leu, gostou e aos três comentários...:)
- Anyway, tenho muita coisa pra ler. Dormir? O que é isso?
- Meu filho chegou na parte das perguntas difíceis. Ontem mesmo me perguntou o que eram bala perdida, corrupção e política... Deuses, cadê as perguntas sobre sexo?

7 de mai de 2007

Chiaroscuro

(Chiaroscuro é o estilo de pintura do final do Renascimento e do Barroco que valoriza do jogo de contrastes entre luz e sombra)

A meio-elfa andava confiante pela floresta. Conhecia todos os caminhos e todas as trilhas. Reconhecia os pássaros pelo canto, as árvores pelo cheiro. A temperatura era tão agradável que, apesar do inverno, podia se enganar achando que a primavera havia chegado mais cedo.
Nem parecia que essa excursão era para aprender certas artes mágicas obscuras que lhe foram negadas por seus ancestrais e que ela precisaria para poder vingar aqueles que amava.
Caminhou, a cabeça erguida. Ela iria quebrar a regra que proibia o ensino da Necromancia para aqueles que tinham sangue mestiço.


Escuridão. Calor. Um útero primordial, feito de quentura e negrume, envolto em caos organizado.
Consciências que deslizam, unindo-se brevemente. Tocam pensamentos alheios, partilham as experiências de seu mundo escuro e calmo.
No Plano Sombrio, existem poucas regras. Talvez só uma realmente importe.
Não tocar. Jamais encostar a sua consciência em algo que não seja da matéria negra e fluida, morna, tranqüila e imutável que é a sombra.


Quando chegou ao lugar certo para a invocação, a noite já se aproximava. Não havia mais luz solar, o mundo paralisara-se naquele estranho tempo que não existe, entre o dia e a noite. O crepúsculo iria lhe dar tempo suficiente para preparar o encantamento necessário.
Armou o pequeno acampamento. Despiu-se completamente, tentando ignorar o frio que arrepiava a pele nua. Armou-se com a adaga de prata e caminhou determinada até a pedra negra em forma de porta, localizada no meio da clareira.
Começou a cantar.


Contato, afastamento. Fluidez, escuridão. Sombra não tinha consciência de há quanto tempo vivia na plenitude do seu plano.
Um fisgão, algo incompreensível. Estava sendo puxado, arrancado, expulso do útero sombrio que habitava desde sempre.
Não gritou por desconhecer a utilidade do som. Na massa negra do Plano Sombrio, um pequeno buraco formou-se onde Sombra estivera, preenchido lentamente pela constante fluidez da escuridão.


A canção terminou no momento em que a realidade gritou. O rasgo-fenda fechou-se sobre si mesmo. Ela não via isso, apenas sentia, os olhos fechados, concentrada no encantamento que fazia pela primeira vez. Quando o último som extinguiu-se, teve coragem para abrir os olhos, a clareira estava tomada por uma escuridão informe, e um calor difuso.
Fortalecendo a voz, comandou.
- Tome forma, ó Sombra que conjurei, e atenda meu pedido.
O manto negro concentrou-se a sua frente, ela conseguiu ver novamente na luz fraca das estrelas da noite sem luar.


Mesmo aquela claridade tão mínima incomodava Sombra. A ordem da criatura pálida a sua frente era irresistível, e ele não tinha como desobedecer. Tomou uma forma levemente parecida com a daquele vulto branco, tentando entender o que estava acontecendo. Ninguém nos seus contatos primordiais havia explicado-comentado aquilo.
Para obedecer a segunda ordem, quebrou a única regra que conhecia. Estendeu sua massa escura e tocou a consciência/corpo daquele estranho ser.


Choque. Dor. Confusão. Espanto. Espasmo. Orgasmo.
As sensações percorriam os dois corpos.
Tremiam, ela na maciez sólida da carne. Sombra ondulava, a fluidez sombria parecendo água agitada pelo vento.
Tornaram-se um só.

Assim começou o longo aprendizado da meio-elfa.


Por meses, sua residência foi aquela clareira. Os dias pouco importavam, pois as sombras só podiam existir a noite. Gradativamente, o conhecimento da manipulação de tudo o que é contrário à luz e ao sol foi se tornando seu, e ela mudava. Seus olhos tornavam-se mais frios, mais calmos, parados.
Sombra também mudara. A forma humanóide já lhe era confortável e aprendera a responder aos pedidos e estímulos da criatura tão pálida.
Uma noite, a moça falou:
- Ó Sombra, me ensine a magia mais mortal, a Palavra que mata.
Um sibilo, sussurro sombrio e sinistro, surgiu da Sombra.
- Para... que?
Sentiu um sobressalto.
- Você... fala?
- Sim. Aprendi. Vezes. Toquei. Sua mente. Para que?
Punhos cerrados e olhos enevoados, ela respondeu.
- Para matar os que mataram os meus.
As estrelas sumiram, e a escuridão pareceu emanar de Sombra.
- Ensina. Somente se. Entregue-se.
Sombra havia tocado a consciência e a inconsciência da mestiça.Aprendera sua língua, padrões de comportamento. E também absorvera paixões, desejos, sensações desconhecidas. O tempo de aprendizado se esgotava, em breve voltaria ao caos de onde emergira. E precisava saber.
Ela hesitou por instantes. Mas não durou muito sua hesitação.Abriu os braços e deixou cair o manto que a envolvia.
Ficou ali parada, imóvel. Esperando que a sombra a envolvesse, como seu calor inesperado. A imagem sensorial que tinha associado ao negrume era a do frio congelante da noite. Mas o toque daquela Sombra era diferente. Tinha calor, e a consistência de algo fluído, a prendendo em um abraço que parecia eterno.
Ouviu a voz que soprou em seu ouvido, sentiu o hálito fresco da criatura, vinda de um outro plano, atendendo seu chamado. Sabia ser proibido o contato físico com seres extra-planares, mas como podia recusar?
Pendeu a cabeça para trás, olhos fechados, apenas sentindo o êxtase e a agonia que acompanhavam cada toque do amante sombrio que escolhera para si. Acompanhava o rastro de calor do caminho que a matéria escura percorria na pele clara, arrepiada de prazer. Gemia alto quando uma parte mais sensível do seu corpo era tocada.
Estava imersa nas sensações.
Sombra sabia, pelo contato com a consciência, o que daria prazer à criatura alva que estava ali, nos seus braços. Mas não podia esperar pelo próprio êxtase, pelas estranhas ondas que tremulavam em sua matéria ao roçar na pele.
A tensão crescia. Algo deveria acontecer; Sombra desistiu de sua forma humanóide, e na sua consistência fluida, cobriu toda a mulher, tocando-a totalmente, em todo o corpo. Abafou seus gemidos, penetrou em seu corpo, tornaram-se um.


Ela acordou sozinha, nua, no meio da clareira. Não havia sinal de nada do que acontecera. Perguntou-se se não teria sido apenas um sonho. Apenas a memória de um novo feitiço dizia que não.
Sentiu-se triste, como se perdesse algo para nunca mais recuperar. Abraçou seus próprios ombros e permitiu-se um momento de nostalgia, lembrando do toque quente e leve do ser que invocara.
Mas o momento passou, e ela seguiu em seu caminho.


Escuridão, caos. Rigidez, deformação. Regras foram quebradas.
Toque em criaturas de pele. Profanação!
A sempre tranqüila massa escura do Plano Sombrio agitava-se, convulsiva, ao sentir na sua consciência o que Sombra fizera.
Não foi punido por não existirem castigos ali.
E mesmo que tivesse sido, para ele valeria a pena. Tornou-se exceção, Sombra que sentia. Treva que poderia um dia seguir aquela a quem tocara.