Mostrando postagens com marcador Fantasia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fantasia. Mostrar todas as postagens

26 de ago. de 2007

Um gostinho de Finisterra

(Estou escrevendo -well, tentando escrever - um romance de 'fantasia-história-alternativa-valsa-do-lusitano-pancada' intitulado Finisterra. Até agora, escrevi uns dois capítulos e mais uns trechos esparsos. Abaixo, uma sinopse-teaser-propaganda e um trechinho do que será um dia o quinto capítulo)
***
Finisterra – Histórias do Império que poderia ter sido.

Um período de calma atravessa o Grande Continente. Os povos do Norte não mais ameaçam as fronteiras do Danu. A paz finalmente foi firmada entre Albion, Francia e Burgúndia. Porém, do confim ainda desconhecido do mundo, uma ameaça surge.

Os Corte-Real, eminentes navegadores a serviço de Dom Manuel, partiram em expedição ao misterioso fim do mundo. Mas não retornaram. Anos depois, uma mensagem é encontrada, com um aviso dos irmãos: os habitantes de onde o mar acaba querem tomar para si as terras do Grande Continente.

Como Imperador da Ibéria Lusitânia, cabe a D. Manuel resgatar seus súditos e impedir essa terrível invasão. Para isso reúne uma imponente esquadra, composta por homens dos diversos reinos.

E como todo o grande feito precisa ser lembrado, o cronista-mor do Império, Rui de Pina, é enviado nessa expedição, junto com seu assistente, Pero de Caminha. Por missão, ambos devem retratar as glórias e as aventuras dessa esquadra. Mesmo a custo de sua própria vida.
******************************************************

Foi a voz de Nimue que deu o alarme.

- Comandante, uma criatura vinda de Ocidente!

Rui, assim como os outros, virou para olhar na direção indicada. Embaixador calejado, não estranhava quase nada. Na verdade, já esquecera da última vez em que algo lhe causara estranhamento. Nem mesmo as mais fantásticas maravilhas afetavam tanto o seu coração a ponto de tirar o ar do cronista. Já vira sereias, licantropos, harpias, dragões, dragonetes, cavalos alados e de chifres, entre muitas outras criaturas.

Porém, a sua frente erguia-se uma criatura horrenda. Saiu da nuvem de escuridão que tinham visto no horizonte e aproximava-se com uma rapidez inacreditável. Seus contornos eram indefiníveis. Era escuro, pois a luz nele sumia, seu hálito chegou até a embarcação e fez com que Rui sentisse uma forte vertigem.

O monstrengo que saíra do fim do mar voou por três vezes ao redor da nau, chiando como um morcego infernal. Quando falou, sua voz pareceu querer furar os ouvidos dos presentes.

- Quem é que ousou entrar nas terras que não desvendo, meus negros tetos do fim do mundo?

Rui tremeu e escutou o comandante Cabral dizer, a voz incerta.

- Viemos a mando do glorioso Imperador D. Manuel, filho del-Rei D. João Segundo!

A sombra pestilenta não retornou para o lugar de onde viera, e novamente deu três voltas, mais próxima dessa vez. O cronista pode perceber contornos de um corpo largo, e placas de sujeira e imundícias. E outra vez, a voz incômoda ressoou.

- De quem são as velas onde me roço? De quem as quilhas que vejo e ouço? Quem vem poder o que só eu posso, que moro onde nunca ninguém me visse e escorro os medos do mar sem fundo?

A voz fraca de Pero elevou-se trêmula para se fazer ouvir sobre o barulho da respiração da besta voadora.

- Viemos a mando do glorioso Imperador D. Manuel, filho del-Rei D. João Segundo!
E mais ainda o monstrengo aproximou-se. Rui lembrou de algo, ensinado por Nimue no início dessa jornada. Pois que a sacerdotisa de Avalon havia lhe explicado o poder tríplice em relação a criaturas mágicas. Antes que o monstro completasse três voltas pela terceira vez, o cronista usou sua voz, treinada em diversas embaixadas.

- Nesta nau, sou mais do que eu. Pois sou um povo que quer o mar que é teu. Mais do que o mostrengo, que teme a minha alma e roda nas trevas do fim do mundo, obedeço a vontade de meu senhor. Assim iremos prosseguir, pois viemos a mando do glorioso Imperador D. Manuel, filho del-Rei D. João Segundo!

A escuridão fétida rugiu, um bramido pavoroso que gelou a alma de todos. Abriu suas asas de negrume e podridão, avançando em direção à pequena nau.

6 de ago. de 2007

Lendas do deserto


No topo da montanha, uma árvore solitária chama a atenção da caravana. A lua serve de pano de fundo para seu contorno retorcido. Um dos mais velhos sorri ao ver o quadro inusitado.

-Era verdade.

O companheiro mais próximo, ocupado em não deixar os animais saírem de fila, pergunta.

-Como?

-Antes do mundo conhecer o Deus Único e seu profeta, o deserto era habitado por seres estranhos. Os homens, ignorantes, cultuavam essas criaturas como deuses. Era chamados djins e ligavam-se ao seu ambiente. Alguns se conectavam com o vento, outros com o sol, assim como havia aqueles que se uniam à terra e os que eram unos com as plantas raras do deserto. Espécies diferentes que viviam em paz, segundo regras específicas. Muitas não ficaram conhecidas pelos homens. Mas algumas se tornaram famosas. A mais rigorosa, a que jamais poderia ser quebrada ou desrespeitada era proibindo a mistura dos djins. Cada um deveria permanecer com os seus. Para a maioria deles, era fácil. Cuidavam dos assuntos de seus domínios, pouco importando os demais. Só que, na tribo dos djins das plantas, havia a mais bela entre todos. Seu nome era Astee, e dançava no meio das plantas com a liberdade daqueles que não sabem serem observados. Escondidos da presença mágica da aura de Astee, dois a admiravam. Quren era filho do Vento. Olhava para a moça, e imaginava uma escrava dobrando-se aos seus desejos. O outro admirador da beleza da dama era Silian, que caminhava na terra. Este se embevecia no sorriso de Astee e sentia vontade de acompanhá-la em sua dança. Receoso de quebrar as regras, ficava satisfeito por vê-la feliz.

-E o outro?

-Os ventos são inconstantes. Não se pode prever seus movimentos ou saber o que estão sentindo. Quren desejava Astee, mesmo sabendo que não poderia possui-la. Decidiu que iria arriscar. Enquanto a doce criatura caminhava em um gramado, saiu de seu esconderijo. Correu atrás dela, levando consigo a força dos ventos, destruindo as plantas em seu caminho. Astee buscou refúgio. Mas ali não havia como se proteger dos ventos enlouquecidos de paixão. Ao ver o desespero de sua amada, Silian não se conteve. Comandou a terra para que se fortalecesse como rochas e protegesse a djin nas encostas rochosas, no entanto pouco adiantou. A fúria do ar aumentava cada vez mais. Em um último sacrifício, Silian juntou sua própria essência à das pedras. E Astee fincou seus pés nas saliências, tentando não ser levada. Quanto mais segurava, mais o ar rodopiava. Reunindo suas últimas forças, transformou-se em uma das plantas que tanto amava. Quren continuou a soprar, entortando seu novo corpo. A força de vontade da djin, combinada com o amor que Silian lhe tinha, resistiram. Os dois uniram-se no meio do deserto.

O caravaneiro olhou novamente. E desta vez pareceu distinguir nas rochas um rosto, e nas curvas da árvore algo feminino.

7 de mai. de 2007

Chiaroscuro

(Chiaroscuro é o estilo de pintura do final do Renascimento e do Barroco que valoriza do jogo de contrastes entre luz e sombra)

A meio-elfa andava confiante pela floresta. Conhecia todos os caminhos e todas as trilhas. Reconhecia os pássaros pelo canto, as árvores pelo cheiro. A temperatura era tão agradável que, apesar do inverno, podia se enganar achando que a primavera havia chegado mais cedo.
Nem parecia que essa excursão era para aprender certas artes mágicas obscuras que lhe foram negadas por seus ancestrais e que ela precisaria para poder vingar aqueles que amava.
Caminhou, a cabeça erguida. Ela iria quebrar a regra que proibia o ensino da Necromancia para aqueles que tinham sangue mestiço.


Escuridão. Calor. Um útero primordial, feito de quentura e negrume, envolto em caos organizado.
Consciências que deslizam, unindo-se brevemente. Tocam pensamentos alheios, partilham as experiências de seu mundo escuro e calmo.
No Plano Sombrio, existem poucas regras. Talvez só uma realmente importe.
Não tocar. Jamais encostar a sua consciência em algo que não seja da matéria negra e fluida, morna, tranqüila e imutável que é a sombra.


Quando chegou ao lugar certo para a invocação, a noite já se aproximava. Não havia mais luz solar, o mundo paralisara-se naquele estranho tempo que não existe, entre o dia e a noite. O crepúsculo iria lhe dar tempo suficiente para preparar o encantamento necessário.
Armou o pequeno acampamento. Despiu-se completamente, tentando ignorar o frio que arrepiava a pele nua. Armou-se com a adaga de prata e caminhou determinada até a pedra negra em forma de porta, localizada no meio da clareira.
Começou a cantar.


Contato, afastamento. Fluidez, escuridão. Sombra não tinha consciência de há quanto tempo vivia na plenitude do seu plano.
Um fisgão, algo incompreensível. Estava sendo puxado, arrancado, expulso do útero sombrio que habitava desde sempre.
Não gritou por desconhecer a utilidade do som. Na massa negra do Plano Sombrio, um pequeno buraco formou-se onde Sombra estivera, preenchido lentamente pela constante fluidez da escuridão.


A canção terminou no momento em que a realidade gritou. O rasgo-fenda fechou-se sobre si mesmo. Ela não via isso, apenas sentia, os olhos fechados, concentrada no encantamento que fazia pela primeira vez. Quando o último som extinguiu-se, teve coragem para abrir os olhos, a clareira estava tomada por uma escuridão informe, e um calor difuso.
Fortalecendo a voz, comandou.
- Tome forma, ó Sombra que conjurei, e atenda meu pedido.
O manto negro concentrou-se a sua frente, ela conseguiu ver novamente na luz fraca das estrelas da noite sem luar.


Mesmo aquela claridade tão mínima incomodava Sombra. A ordem da criatura pálida a sua frente era irresistível, e ele não tinha como desobedecer. Tomou uma forma levemente parecida com a daquele vulto branco, tentando entender o que estava acontecendo. Ninguém nos seus contatos primordiais havia explicado-comentado aquilo.
Para obedecer a segunda ordem, quebrou a única regra que conhecia. Estendeu sua massa escura e tocou a consciência/corpo daquele estranho ser.


Choque. Dor. Confusão. Espanto. Espasmo. Orgasmo.
As sensações percorriam os dois corpos.
Tremiam, ela na maciez sólida da carne. Sombra ondulava, a fluidez sombria parecendo água agitada pelo vento.
Tornaram-se um só.

Assim começou o longo aprendizado da meio-elfa.


Por meses, sua residência foi aquela clareira. Os dias pouco importavam, pois as sombras só podiam existir a noite. Gradativamente, o conhecimento da manipulação de tudo o que é contrário à luz e ao sol foi se tornando seu, e ela mudava. Seus olhos tornavam-se mais frios, mais calmos, parados.
Sombra também mudara. A forma humanóide já lhe era confortável e aprendera a responder aos pedidos e estímulos da criatura tão pálida.
Uma noite, a moça falou:
- Ó Sombra, me ensine a magia mais mortal, a Palavra que mata.
Um sibilo, sussurro sombrio e sinistro, surgiu da Sombra.
- Para... que?
Sentiu um sobressalto.
- Você... fala?
- Sim. Aprendi. Vezes. Toquei. Sua mente. Para que?
Punhos cerrados e olhos enevoados, ela respondeu.
- Para matar os que mataram os meus.
As estrelas sumiram, e a escuridão pareceu emanar de Sombra.
- Ensina. Somente se. Entregue-se.
Sombra havia tocado a consciência e a inconsciência da mestiça.Aprendera sua língua, padrões de comportamento. E também absorvera paixões, desejos, sensações desconhecidas. O tempo de aprendizado se esgotava, em breve voltaria ao caos de onde emergira. E precisava saber.
Ela hesitou por instantes. Mas não durou muito sua hesitação.Abriu os braços e deixou cair o manto que a envolvia.
Ficou ali parada, imóvel. Esperando que a sombra a envolvesse, como seu calor inesperado. A imagem sensorial que tinha associado ao negrume era a do frio congelante da noite. Mas o toque daquela Sombra era diferente. Tinha calor, e a consistência de algo fluído, a prendendo em um abraço que parecia eterno.
Ouviu a voz que soprou em seu ouvido, sentiu o hálito fresco da criatura, vinda de um outro plano, atendendo seu chamado. Sabia ser proibido o contato físico com seres extra-planares, mas como podia recusar?
Pendeu a cabeça para trás, olhos fechados, apenas sentindo o êxtase e a agonia que acompanhavam cada toque do amante sombrio que escolhera para si. Acompanhava o rastro de calor do caminho que a matéria escura percorria na pele clara, arrepiada de prazer. Gemia alto quando uma parte mais sensível do seu corpo era tocada.
Estava imersa nas sensações.
Sombra sabia, pelo contato com a consciência, o que daria prazer à criatura alva que estava ali, nos seus braços. Mas não podia esperar pelo próprio êxtase, pelas estranhas ondas que tremulavam em sua matéria ao roçar na pele.
A tensão crescia. Algo deveria acontecer; Sombra desistiu de sua forma humanóide, e na sua consistência fluida, cobriu toda a mulher, tocando-a totalmente, em todo o corpo. Abafou seus gemidos, penetrou em seu corpo, tornaram-se um.


Ela acordou sozinha, nua, no meio da clareira. Não havia sinal de nada do que acontecera. Perguntou-se se não teria sido apenas um sonho. Apenas a memória de um novo feitiço dizia que não.
Sentiu-se triste, como se perdesse algo para nunca mais recuperar. Abraçou seus próprios ombros e permitiu-se um momento de nostalgia, lembrando do toque quente e leve do ser que invocara.
Mas o momento passou, e ela seguiu em seu caminho.


Escuridão, caos. Rigidez, deformação. Regras foram quebradas.
Toque em criaturas de pele. Profanação!
A sempre tranqüila massa escura do Plano Sombrio agitava-se, convulsiva, ao sentir na sua consciência o que Sombra fizera.
Não foi punido por não existirem castigos ali.
E mesmo que tivesse sido, para ele valeria a pena. Tornou-se exceção, Sombra que sentia. Treva que poderia um dia seguir aquela a quem tocara.

28 de abr. de 2007

ArturiANA alternativa


Depois de anos martelando o poema de Tennyson na cabeça, os textos do Octa e do Lupo no Hyperfan conseguiram me dar uma brecha e libertar a Dama de Shalott.


Tennyson adorava as histórias da corte de Arthur, mas lhes dava um tom melancólico, bem 'mal do século'. No poema da mulher criada em total isolamento não foi diferente e eu quis manter isso.


Conheci o poema, por incrível que pareça, em uma epígrafe de um livro da Agatha Christie, 'A maldição do espelho'. Ele também é citado recorrentemente no romance. Fiquei com ele na cabeça por um tempo.


Depois, vieram as lindas pinturas de Waterhouse. A que ilustra esse post é a minha predileta.
E por fim, Loreena MacKeenit musicou um trecho bem extenso do poema de Tennyson. Não pude mais resistir.
É só clicarem no título do post para irem ao site do Hyperfan. Espero que gostem.

28 de set. de 2006

"É tarde!"


O coelho branco olhou o relógio.

- Oh, meu Deus! É tarde!

Correu em disparada, com medo de não conseguir chegar a tempo. Para seu desespero, a garotinha loira acabara de se levantar, com a gata Diná no colo. Estava na hora de jantar, e sua babá chamava.

Só restou ao coelho branco guardar o relógio no bolso do colete. Sentado na raiz da árvore, olhou para o buraco por onde Alice deveria ter passado e suspirou.

Foi por tão pouco.

29 de jan. de 2006

A camponesa e o cavaleiro

O Amor é uma causa perdida.

E Ana sabia disso. Não procurava mais. Nas planícies do reino de Netius, ela havia desistido e passara a viver simplesmente. Camponesa, com o tipo físico característico. Era um pouco mais do que as moças ao seu redor, porque estudar as Artes de Cura. Não chegava a ser uma bruxa, mas possuia algumas poucas habilidades. Virara a curandeira de seu lugar.

Foi por isso que a chamaram ao encontrar o jovem cavaleiro caído na floresta. Apesar de ferido, não deixou que visse o seu rosto.

- Melhor não... para nós dois.

Relutante, concordou. Ele ficou com o elmo até ser levado a uma das cabanas, onde na penumbra sentiu-se confortável para o retirar. Ana não conseguiu sequer adivinhar os contornos de sua face, mas pouco importava. Tratou da perna quebrada e das escoriações nos braços e abdomen. Cantava baixinho, até o estranho elogiar sua voz. Encabulada parou.

- Não pare, por favor.

Recolhendo suas coisas, apenas murmurou.

- Já terminei. Preciso cuidar do resto dos meus afazeres.

- E o seu nome?

Na porta, saindo na penumbra, ela apenas respondeu em um sussurro.

- Ana.

Os dias transcorreram em uma nova rotina. Boa parte do tempo, a camponesa passava com o estranho. A perna causava preocupação, já que a queda do cavalo fora em alta velocidade. A intimidade surgiu entre ambos. O rapaz disse chamar-se Onaimar, filho de nobres pouco importantes de uma terra próxima. Sem esperanças de melhorar de vida, decidira-se tornar um cavaleiro andante, enfrentando perigos e torneios.

Sua alma não era de um guerreiro. Foi o que a moça descobriu, ao conversar seguidamente com ele. Era um poeta, alguém gentil e sensível. Passaram tardes inteiras apenas para discorrer sobre as mudanças de tempo e sua influência na poesia. Pois a magia era feita em versos, e Ana, apesar de não ser muito versada, gostava. Conseguia acompanhar as exposições, em pouco tempo, debatia as proposições de seu companheiro.

Ele acabara revelando o rosto, sereno, feições tranquilas. O cavaleiro já não estava ferido, mas permanecia por ali. Ana retomou as demais atividades, porém à noite ia servir o jantar ao seu convidado. E continuavam a conversar. Já não imaginavam uma vida sem o outro.

Uma coisa intrigava Ana. Desde que se recuperara, o jovem todos os dias enviava uma mensagem, que era respondida logo.

Um dia, ele explicou.

- É assim que a vida de um cavaleiro funciona, minha querida. Preciso saber dos torneios e dos passos. Aliás, semana que vem terá um perto daqui. Terei que ir, pois faz tempo que não participo. Prometo que volto, assim que tiver ganho.

Simplesmente sorriu. Mesmo tendo ouvido histórias similares, sabendo que dificilmente ele retornaria, acreditou.

Semanas passaram-se... Sequer notícias de Onaimar, e ela estava pensando em ir até a cidade onde fora o passo. Um mercador, passando pela aldeia, quebrara o braço. Em pagamento pela cura, iria conduzi-la.

Não foi necessario. Ao fazer o curativo, explicara que ia procurar um rapaz que combatera no torneio. O comerciante, na inocência que o não saber traz, comentou animado.

- Sim, o torneio. Um jovem cavaleiro destacou-se. Filho de um baronete qualquer, com um porte de armas fabuloso. Que justas! A senhorita precisava ver... e a jovem princesa ficou absolutamente encantada. Os olhos verdes dela brilhavam como esmeraldas. Fez questão de recompensar o vencedor.

O coração dela parecia ter ido para outro lugar, fugindo do peito. Sem notar, ele prosseguiu.

- Tanto fez, mas tanto tentou que o rapaz casou com ela. Quer dizer, ele não relutou muito. A príncipio, disse ter alguém em seu coração, essas baboseiras. Mas como resistir a uma princesa? Puxa, quase uma deusa...loura, alta, olhos verdes, porte nobre, belas roupas. Fizeram um belo par, sabe? O futuro casal governante do reino. Rei Onaimar e Rainha Gia.

O sorriso não morreu. Ela recusou o oferecimento da condução alegando ter doentes a cuidar.

Olhou a carroça afastar-se.

O Amor era uma causa perdida. Ana sabia disso. Como podia querer competir com uma princesa, imagem dos deuses? Ela? Camponesa, mãos grandes, pele curtida ao sol. Cabelos de um louro baço, sujo, de ficar ao tempo. Corpo de quem precisava aguentar o trabalho de muitos dias, sólido, compacto, largo.

Como o culpar por ter escolhido uma silfide, esguia, cabelos como a luz do sol, olhos de esmeraldas, porte e figura de rainha-governante?

Por mais que amasse as causas perdidas, essa era demais mesmo para ela. Não chorou, como um soldado não chora ao deixar o campo de batalha. Entrou em sua cabana e voltou a viver do jeito que sempre vivera.

27 de nov. de 2005

Como nos tornamos Fogo?

Como nos tornamos fogo,
Escravos de um pequeno desejo?

How we became fire? - Moonspell


As chamas consumiam os últimos fios do teu cabelo.

Como foi que me perdi do caminho escolhido, por ver em tua boca a promessa de algo mais?

Em que momento tua presença tornou-se mais importante do que qualquer coisa?

Em que encruzilhada do destino eu vi os teus cabelos ruivos?

Disseste ser salamandra, dona do Fogo e dos seus domínios. E amei-te mesmo assim. No meu estúdio alquímico, conjurava demônios, e atravessei os limites do Plano flamejante onde moravas.

De início, fez-me promessas e aumentou meu conhecimento. Eras espectro de chamas nas sombras do meu feitiço de invocação.

Encantaste-me. Com teus olhos de fogo, teus cabelos como o cobre, a voz que queimava minh’alma. Tua visão brilhava em meus sonhos, perseguia-me enquanto estava acordado. Sequer tentei resistir, forçar-me a desvanecer tua figura. Joguei meu espírito em tuas chamas.

Queria mais, desejava possuir teu corpo que não existia. Incorporal, etérea, eras Salamandra, rainha e espírito do Fogo.

Dediquei meus estudos, meu tempo, minha riqueza a meu único objetivo. Abraçar teu corpo e consumir meu desejo em tua carne quente. Deveria criá-la, fazer tua essência imaterial passar dos planos elementais e tornar-se matéria.

Dias, meses, anos. Consumi minha vida na vontade insana de saciar minha vontade de ti.

Não foi em vão.

Uma noite de chuva opressora, calor sufocante. Moldei as formas no barro, fiz os encantamentos devidos. Convoquei-te e fiz a proposta. Teu sorriso faiscou a tua resposta. Porém, antes de me deixar começar, fizeste uma advertência. Tua estada no meu plano seria curta. Em seis meses, deixarias de ser barro e tornarias ao fogo, que era tua casa.

Vivi esses dias imerso no queimar da matéria que fiz para ti. O desejo ardia nos dois, tornando-nos escravos e senhores um do outro.

Hoje, o prazo findou-se. Teu último beijo ainda estava quente nos meus lábios, meus braços guardavam a sensação do teu calor. Vi a frágil existência que eu criara sendo consumida pelas chamas que te reclamavam.

As chamas consumiam os últimos fios do teu cabelo.

Por que saí do caminho escolhido, ao ver em tua boca a promessa de algo mais?

Quando senti tua presença mais importante do que minha vida?

Em que encruzilhada do destino eu segui os teus cabelos ruivos?

No meio do meu estúdio, o fogo era glorioso. Tua face refletida nele. Dei os passos necessários, e novamente nos abraçamos.

Mas já não era a essência do fogo que se fazia carne. Era meu corpo que se entregava às chamas.

Foi assim que nos tornamos Fogo.

1 de ago. de 2005

Morgana fala...


Saio das águas do lago com a espada nas mãos. Não iria deixar nosso tesouro nas mãos dos adoradores do deus morto. Na noite fria, as brumas me envolvem como se me reconhecessem.
Não consigo chorar, os rios que escorrem por minhas faces não são lágrimas. Mas meu irmão, rei e amante, está morto. E com ele, o mundo que conheci, amei e lutei até o fim para preservar. Pois aquele que nascera para ser nosso líder, que deveria nos fazer triunfar sobre os cantadores de missa, nos traiu.

Somente eu sei como ele morreu. Ninguém mais saberá. Continuo andando, sem sentir dor, frio ou cansaço. É tarde demais para todos nós, depois do que aconteceu há tão pouco tempo


Era uma tarde gloriosa, os invasores haviam sido finalmente derrotados. Artur, líder dos bretãos, bradava alegremente, cantando a sua vitória. Os soldados o imitavam, saudando os seus deuses. Eu sorria e gritava junto quando aclamavam a Deusa, da qual sou sacerdotisa.
A alegria foi interrompida. Uma pequena comitiva se aproximou de Artur. Patrício, bispo da Irlanda, e a rainha pediam a palavra. Ao meu lado, o velho druida franziu a testa. Os nossos soldados, incluindo o meu filho com o rei, perceberam, parando as salvas. Minutos depois, Artur, sério, virou para as tropas, anunciando que a partir daquele momento, em agradecimento pela vitória, a Bretanha seria cristã, e os antigos deuses deveriam ser esquecidos.

Ao anoitecer, eu e meu filho acompanháramos o Merlin em seu encontro com Artur. Meu irmão sequer abriu a boca, pois o druida começou a despejar seu discurso de ódio e maldição.

- Você, que nos deve tudo; você, a quem seguimos lealmente. Traidor. Você ajudou o bispo caçador de serpentes. A morte é pequena demais como castigo. Eu te amaldiçôo, Artur, filho de Uther. A não ter memória, a não ser lembrado. A partir desse dia, seu nome e o do seu povo serão mitos e lendas. Ninguém poderá afirmar quem foi você, quais foram os seus feitos, qual foi sua família. Sua mulher o renegará, seus amigos o esquecerão. E você estará morto, e a sua imagem virará névoa.

Um trovão ecoou. Mordred percebeu e pulou para salvar seu pai. Morreram juntos, como jamais estiveram em vida. O Merlin jogou a espada sagrada no lago, antes de cair morto.Como em um sonho, me joguei nas águas frias...



Quando saio do transe, tenho os músculos rijos de frio. Estou na costa da Cornualha, perto de onde nasci. O frio do metal corta as minhas mãos, devo ter andado durante dias para estar aqui. O mar estende-se aos meus pés, no fundo dos imensos penhascos. No horizonte, o céu cinzento encontra o mar. Além, quem sabe? A terra de Ys Brasil?

Pelos tempos que se foram, e pelos que virão, eu digo uma prece. Peço piedade para aqueles que adoram o deus morto. Meus pés encontram o ar e meu corpo cai, com Excalibur em minhas mãos.

10 de mai. de 2005

Lua Negra

Foi a noite mais escura da minha vida. O ar estava denso e pesado, e nenhuma estrela brilhava. Kahntsi Ehnita, o xamã responsável pelo ritual das noites sem lua, havia convocado uma reunião de todos os chefes dos Hodenosaunee. Meu tio, irmão de minha mãe, estava lá representando nossa nação, caienga. Nos chamavam de ‘mohawks’, por nossa ferocidade. E o acompanhei, orgulhoso.

Não era uma reunião normal. O Conselho havia se reunido duas luas antes. Não estávamos em guerra, não era preciso reunir os chefes. Tremi na minha roupa nova. Todos esperavam algo de ruim a ser dito. Os chefes das Cinco Nações estavam frente a frente na grande fogueira. Meu tio postou-se do lado do chefe Seneca e do chefe Odonanga, como de costume, por serem as nações que fundaram a nossa união. Do outro lado, os chefes Oneida e Cayuga, os irmãozinhos. Seus clãs eram fortes, mas ainda não tanto quanto os dos irmãos mais velhos. Meu pai era filho do chefe Oneida; e me olhou com orgulho, ao me ver do lado de meu tio.

E o xamã Lua Negra entrou. Velho, como se tivesse existido desde que a Mãe de Todos criara o Grande Rio. Para nossa surpresa, não estava pintado, não usava paramentos. Vinha vestido com a sua roupa simples, se enfeitara com a sua dignidade e sua sabedoria. E, hoje, cativo daqueles que o mataram, ainda posso escutar sua voz trêmula. Lágrimas me subiram aos olhos, naquela noite. E como todos os outros, gritei pedindo auxílio da Mãe.

- Ah, irmãos, Nações das Grandes Casas! Nós, que somos irmãos das árvores, e que vivemos ao abrigo de sua sombra. Nós, que chamamos a águia de mestra e o urso de companheiro. Eis o que os sonhos me disseram!

“A Mãe me pegou pela mão. Mostrou as florestas em que vivemos, o rio que amamos e as praias de onde tiramos o peixe. Foi mais além e mostrou onde nossos outros irmãos vivem. As terras do bisão e da areia. Os lagos silenciosos. E apesar de sermos inimigos, meu coração ficou feliz ao vê-los. E olhei para a Mãe. Chorava, e suas lágrimas me levaram até o mar. Perguntei ‘Mãe, por que chora?’ E ela disse ‘Choro pelos meus filhos, todos eles. Do pequeno raccon ao grande bisão. Do pacífico dakota ao guerreiro mohawk. Tudo tem um fim, e o tempo dos meus filhos não irá durar. Vocês que correm livres serão prisioneiros. Passarão fome, terão sede e seus filhos serão mortos. E no fim, serão iguais a eles’. Não pude perguntar, pois ela me trouxe de volta. E eu acordei, e vi a noite sem estrelas. Agora sei que tudo está acabando.”

Gritamos noite adentro. Quando eles vieram, lutamos como se fossemos loucos, pois sabíamos que tudo estava perdido. Muitos morreram. Meu tio, meu pai e o xamã. Fui preso, e da minha prisão ainda ouço nossas vozes gritando. Hoje sei que naquela noite sem estrelas, todos os ‘índios’ gritaram à Mãe.