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4 de out. de 2007

Ponteiros


“O ponteiro pequeno marca a hora. O grande, os minutos.”

A mãe repetira incansável por anos a fio, tentando ensinar a criança que todos diziam ser lenta demais para aprender.

E a cada vez que dizia, o estapeava. “Pra aprender mais rápido”.

Ele aprendeu. Apanhou. Sofreu. Foi humilhado.

Mas aprendeu.

Olhou o relógio no pulso da mãe.

Limpou o sangue que secara no mostrador.

O ponteiro pequeno no dois, o grande no doze. Parado, marcando duas da manhã, a hora em que a matara.

Arrancou o relógio, jogou-o no chão.

Descarregou as balas restantes no aparelho. Nunca mais olharia um relógio.

25 de jul. de 2007

Deus embaralha, o Destino corta

Eu duvido que Deus jogue dados com o Universo.

Mas falando sério, ao olhar a minha vida, eu tenho a impressão de que rola pelo menos um poquerzinho nos sábados à noite.

Mas nem é isso o que mais me irrita.

O pior de tudo é quando estou finalmente feliz e vem o Destino com aquela proposta.

- O dobro ou nada.
E é aí que eu vejo que Deus, além de não saber quando parar, tem um azar danado com cartas.

27 de abr. de 2007

Fim da dor

Anos passaram sem que Antônio voltasse do mar sem fim. Maria de Fátima, envolta em tecidos negros, chorava seu luto olhando o azul interminável até doer a vista.

Na tempestade que arrasara tantos navios, apenas Antônio jamais fora encontrado. Nem seu corpo.

Por isso, olhava o mar, fio de esperança que corria em sua alma.

Quando viu a silhueta tão conhecida erguer-se na água, sorriu. Não reparou que a pele pendia, que as órbitas eram buracos vazios, que os cabelos eram algas amareladas.

Enquanto corria para abraçá-lo, mesmo sentindo o fedor da podridão, só pensava em como era bom tê-lo de volta.

28 de set. de 2006

"É tarde!"


O coelho branco olhou o relógio.

- Oh, meu Deus! É tarde!

Correu em disparada, com medo de não conseguir chegar a tempo. Para seu desespero, a garotinha loira acabara de se levantar, com a gata Diná no colo. Estava na hora de jantar, e sua babá chamava.

Só restou ao coelho branco guardar o relógio no bolso do colete. Sentado na raiz da árvore, olhou para o buraco por onde Alice deveria ter passado e suspirou.

Foi por tão pouco.

13 de dez. de 2005

Cerejeira

Depois da guerra, nada sobrou. Ando por minha cidade procurando um sinal de vida, uma cor diferente do cinza de chumbo do inverno atômico que já dura dois anos.

Sem perceber, chego ao Jardim Municipal. Lá, no meio das outras árvores, rainha sem reino, está nossa cerejeira. Onde gravamos nossas iniciais, em algum dia de uma primavera que não mais voltará.

Pois você morreu no primeiro ataque dos invasores, na frente de batalha, queimado até não sobrar nada. E da cerejeira, sobrou o tronco. Onde estão as folhas verdes e brilhantes? Perdidas em um verão pretérito.

Encosto a cabeça na árvore e me deixo cair ao chão, qual folha nas manhãs de outono de minha lembrança.

1 de ago. de 2005

Morgana fala...


Saio das águas do lago com a espada nas mãos. Não iria deixar nosso tesouro nas mãos dos adoradores do deus morto. Na noite fria, as brumas me envolvem como se me reconhecessem.
Não consigo chorar, os rios que escorrem por minhas faces não são lágrimas. Mas meu irmão, rei e amante, está morto. E com ele, o mundo que conheci, amei e lutei até o fim para preservar. Pois aquele que nascera para ser nosso líder, que deveria nos fazer triunfar sobre os cantadores de missa, nos traiu.

Somente eu sei como ele morreu. Ninguém mais saberá. Continuo andando, sem sentir dor, frio ou cansaço. É tarde demais para todos nós, depois do que aconteceu há tão pouco tempo


Era uma tarde gloriosa, os invasores haviam sido finalmente derrotados. Artur, líder dos bretãos, bradava alegremente, cantando a sua vitória. Os soldados o imitavam, saudando os seus deuses. Eu sorria e gritava junto quando aclamavam a Deusa, da qual sou sacerdotisa.
A alegria foi interrompida. Uma pequena comitiva se aproximou de Artur. Patrício, bispo da Irlanda, e a rainha pediam a palavra. Ao meu lado, o velho druida franziu a testa. Os nossos soldados, incluindo o meu filho com o rei, perceberam, parando as salvas. Minutos depois, Artur, sério, virou para as tropas, anunciando que a partir daquele momento, em agradecimento pela vitória, a Bretanha seria cristã, e os antigos deuses deveriam ser esquecidos.

Ao anoitecer, eu e meu filho acompanháramos o Merlin em seu encontro com Artur. Meu irmão sequer abriu a boca, pois o druida começou a despejar seu discurso de ódio e maldição.

- Você, que nos deve tudo; você, a quem seguimos lealmente. Traidor. Você ajudou o bispo caçador de serpentes. A morte é pequena demais como castigo. Eu te amaldiçôo, Artur, filho de Uther. A não ter memória, a não ser lembrado. A partir desse dia, seu nome e o do seu povo serão mitos e lendas. Ninguém poderá afirmar quem foi você, quais foram os seus feitos, qual foi sua família. Sua mulher o renegará, seus amigos o esquecerão. E você estará morto, e a sua imagem virará névoa.

Um trovão ecoou. Mordred percebeu e pulou para salvar seu pai. Morreram juntos, como jamais estiveram em vida. O Merlin jogou a espada sagrada no lago, antes de cair morto.Como em um sonho, me joguei nas águas frias...



Quando saio do transe, tenho os músculos rijos de frio. Estou na costa da Cornualha, perto de onde nasci. O frio do metal corta as minhas mãos, devo ter andado durante dias para estar aqui. O mar estende-se aos meus pés, no fundo dos imensos penhascos. No horizonte, o céu cinzento encontra o mar. Além, quem sabe? A terra de Ys Brasil?

Pelos tempos que se foram, e pelos que virão, eu digo uma prece. Peço piedade para aqueles que adoram o deus morto. Meus pés encontram o ar e meu corpo cai, com Excalibur em minhas mãos.

14 de jul. de 2005

A dama da noite


A dama da noite
Sempre ouvi histórias sobre o perfume da dama da noite. Colhida no meio de um buquê, abria-se durante a noite em um quarto fechado, matando quem estivesse no recinto.
Lígia lembrava-me a dama da noite. Sua pele era alva como essa flor, e sua beleza escondida desabrochava a noite. E seu perfume...inebriante. Não conseguia pensar em mais nada ao senti-lo. E seu cheiro ficava em minha memória.Porém, todos os meus pedidos de casamento foram recusados. Escolheu outro.
Mas, hoje, no dia de suas núpcias, eu trouxe Lígia para mim. Colhi-a, como quem colhe uma flor. Matei-a, sim, mas o que me importa? Espero a noite, quando a minha dama irá desabrochar, matando-me com seu perfume.

23 de jun. de 2005

De ressaca

Ai. Que puta ressaca. Misturar destilados hidrolíticos marcianos com licores da Nuvem de Magalhães não podia dar certo mesmo. Droga. Melhor pegar o cartão de ignição e sair dessa espelunca...

Opa, calma aí. Cadê meu cartão? Sem ele, não consigo dar a partida no meu velho XTR 450, modelo adaptado pro Sistema Solar. Será que eu perdi em algum canto? Bom, não vai ser difícil entrar sem ele, e lá dentro eu faço uma ligação direta na corrente de neutrinos azuis...

Pó, eu devo estar olhando a escotilha errada, só pode ser. Cadê a sucata que eu deixei ali, noite passada? Ah, droga. Meu cronômetro deve estar errado. Não podem ter passado 5 dias-padrão solar desde que eu cheguei aqui, e ele diz que foram 3 semanas!

Ih, não é meu cronômetro não. O da parede está marcando a mesma data.Ai, não; perdi a data da entrega da mercadoria. Quer dizer, acho que até a mercadoria eu perdi. Vamos recapitular aos poucos, se a cabeça não rachar no processo.

Peguei a carga de urânio ultra fino, coloquei no XTR e parti em direção ao sistema solar. Era uma encomenda para as usinas termo-nucleares de Marte. Só que, ao chegar na órbita de Júpiter, senti sede e resolvi parar.

Era o bar mais falado entre os carregadores de todo o braço inferior da Galáxia. Também, merecia. Bebida boa, comida farta, e companhia à vontade. Para todos os gostos e preferências, machos e fêmeas de todas as raças conhecidas. Foi ali, no salão principal do bar que eu a vi.

Todas as marcianas são maravilhosas – seleção genética apuradíssima dos colonos e dos fetos autorizados a completar a gestação – mas aquela ali era simplesmente divina. Pele negra como ébano, cabelos brancos até a cintura e olhos com a cor das nuvens de tempestade, veio em minha direção com um sorriso nos lábios perfeitos e um copo na mão.

O que foi que ela disse? Merda de dor de cabeça. Ah, ela veio com algum papo mole desses, elogiou meus dois tentáculos laterais ou coisa do tipo.Não lembro, só consigo sentir o gosto da bebida e ...Piranha, vadia, ela me dopou. Ela deve ter pego meu cartão de ignição, roubado minha nave e...

****

Os pensamentos do arcturiano foram interrompidos pela vozinha aguda de um insetóide.

- Senhor? Senhor? Com licença, ficamos felizes que tenha se recuperado. Parece que sua raça tem uma alergia especialmente forte a algumas bebidas do sistema solar. O senhor ficou em coma durante alguns dias. Sua nave foi colocada em uma vaga a parte, e seu cartão ficou conosco para sua maior segurança.

Com um resmungo, pegou o cartão e foi embora sem agradecer. Não viu o sorriso cínico da funcionária, e não reparou que estava sem seus dois tentáculos laterais, situados atrás dos braços.

Atrás do balcão da recepção, um cartaz piscava:

“Atenção, tentáculo e outras partes corporais dispensáveis de pessoas embriagadas serão consideradas sem proprietário legítimo”

10 de mai. de 2005

Lua Negra

Foi a noite mais escura da minha vida. O ar estava denso e pesado, e nenhuma estrela brilhava. Kahntsi Ehnita, o xamã responsável pelo ritual das noites sem lua, havia convocado uma reunião de todos os chefes dos Hodenosaunee. Meu tio, irmão de minha mãe, estava lá representando nossa nação, caienga. Nos chamavam de ‘mohawks’, por nossa ferocidade. E o acompanhei, orgulhoso.

Não era uma reunião normal. O Conselho havia se reunido duas luas antes. Não estávamos em guerra, não era preciso reunir os chefes. Tremi na minha roupa nova. Todos esperavam algo de ruim a ser dito. Os chefes das Cinco Nações estavam frente a frente na grande fogueira. Meu tio postou-se do lado do chefe Seneca e do chefe Odonanga, como de costume, por serem as nações que fundaram a nossa união. Do outro lado, os chefes Oneida e Cayuga, os irmãozinhos. Seus clãs eram fortes, mas ainda não tanto quanto os dos irmãos mais velhos. Meu pai era filho do chefe Oneida; e me olhou com orgulho, ao me ver do lado de meu tio.

E o xamã Lua Negra entrou. Velho, como se tivesse existido desde que a Mãe de Todos criara o Grande Rio. Para nossa surpresa, não estava pintado, não usava paramentos. Vinha vestido com a sua roupa simples, se enfeitara com a sua dignidade e sua sabedoria. E, hoje, cativo daqueles que o mataram, ainda posso escutar sua voz trêmula. Lágrimas me subiram aos olhos, naquela noite. E como todos os outros, gritei pedindo auxílio da Mãe.

- Ah, irmãos, Nações das Grandes Casas! Nós, que somos irmãos das árvores, e que vivemos ao abrigo de sua sombra. Nós, que chamamos a águia de mestra e o urso de companheiro. Eis o que os sonhos me disseram!

“A Mãe me pegou pela mão. Mostrou as florestas em que vivemos, o rio que amamos e as praias de onde tiramos o peixe. Foi mais além e mostrou onde nossos outros irmãos vivem. As terras do bisão e da areia. Os lagos silenciosos. E apesar de sermos inimigos, meu coração ficou feliz ao vê-los. E olhei para a Mãe. Chorava, e suas lágrimas me levaram até o mar. Perguntei ‘Mãe, por que chora?’ E ela disse ‘Choro pelos meus filhos, todos eles. Do pequeno raccon ao grande bisão. Do pacífico dakota ao guerreiro mohawk. Tudo tem um fim, e o tempo dos meus filhos não irá durar. Vocês que correm livres serão prisioneiros. Passarão fome, terão sede e seus filhos serão mortos. E no fim, serão iguais a eles’. Não pude perguntar, pois ela me trouxe de volta. E eu acordei, e vi a noite sem estrelas. Agora sei que tudo está acabando.”

Gritamos noite adentro. Quando eles vieram, lutamos como se fossemos loucos, pois sabíamos que tudo estava perdido. Muitos morreram. Meu tio, meu pai e o xamã. Fui preso, e da minha prisão ainda ouço nossas vozes gritando. Hoje sei que naquela noite sem estrelas, todos os ‘índios’ gritaram à Mãe.

23 de abr. de 2005

O Senhor do Tempo

O Senhor do Tempo abriu as mãos. Os milênios escorreram como se fossem meros segundos. Galáxias surgiram, estrelas nasceram, planetas se formaram. Mas achou pouco.

O Senhor do Tempo soprou. E os milênios partiram-se em séculos. A Vida brotou: água, chuvas, vulcões e terremotos transformaram a sua obra anterior. Mesmo assim não ficou satisfeito.

O Senhor do Tempo abriu os olhos. Dos séculos, surgiram anos. Vieram as civilizações, grupos pequenos, pintores de paredes; viravam aglomerados informes de população, que construíam templos e obras gigantescos.

O Senhor do Tempo começou a se sentir satisfeito. E as civilizações começaram a se destruir, colocando toda a criação em risco. E Ele fechou os olhos.

Mas era tarde demais.

19 de abr. de 2005

O caso da estatueta roubada

(Texto que foi enviado para competir na OE, mas venceu por WO....)


Odeio clichês, chavões, estereótipos e outras faltas de originalidade. E foi impossível não pensar nesse meu sentimento quando ele entrou na minha sala. Suado, falando alto e gesticulando, sotaque carregado: o típico italiano, enfiado em um terno mal cortado. Disfarçando minha repulsa, indiquei a cadeira reservada aos clientes, enquanto fazia uma pose de atenção total. Minha mente divagou entre o péssimo caimento da vestimenta dele e quanto receberia por um trabalho para o carcamano. Um “porca miséria” aqui, outro lá, e pouco a pouco foi se desvendando uma trama confusa, monótona e...clichê. Uma estátua rara, de um Deus do Ódio polinésio, fora roubada da casa do italiano, e ele precisava recupera-la. Havia vendido para um cliente importante – era antiquário. Recebera o dinheiro, e não tinha mais o tal Deus.

Estava prestes a mandar o sujeito procurar a seção de “Achados e Perdidos” do Correio mais próximo, quando outro estereótipo entrou na minha sala. Loira, alta, bem feita de corpo, imensos olhos azuis nublados de lágrimas, lábios pintados com esmero, que tremiam no esforço para conter os soluços. Retiro o que disse. No fundo, clichês têm o seu lado interessante.

A deusa abraçou o velho, chamando o de pai, para minha grande felicidade. Depois virou em minha direção aquelas duas poças de luz. Pediu minha ajuda para o pai. Ao Inferno o meu preconceito em relação a clichês. Peguei meu sobretudo do cabide, atrás da porta, enfiei o chapéu na cabeça e dei passagem para a mocinha. O pai pediu para ficar, pois tinha medo dos assaltantes.

Ofereci meu braço a beldade loura que me acompanhou até a residência que dividia com o pai. Moravam bem, em uma mansão afastada da cidade. Chique. As luzes estavam apagadas, e minha acompanhante explicou que era porque os empregados já estavam dormindo. Fui imediatamente ao aposento indicado, onde a estatua ficava antes do assalto, enquanto ela disse que iria até a cozinha.

Olhando os cacos de vidro, antegozei as delícias de completar aquele caso. Iria me tornar um herói para aquela mulher estonteante, além de poder cobrar um preço bem substancial. Finalmente poderia deixar de ser um detetive de terceira e ir além. Bom, muito bom. Um som estridente tirou-me dessas deliciosas reflexões. Sirenes?



Uma semana depois, fui libertado. Finalmente os policiais acreditaram na minha história, principalmente depois do telefonema do meu senhorio, reclamando da porta aberta e do escritório saqueado. Sim, maldito seja o velho, além de assaltar uma mansão e me colocar de bode expiatório, levou tudo o que eu tinha no mundo.

Entrei na sala vazia, dei um murro na parede e gritei.

- Porca miséria, eu odeio italianos!

Ao invés de me sentir aliviado, a mão começou a latejar e doer. É como eu disse no princípio. Odeio clichês e coisas do tipo. Mas com tantos chavões ao meu redor, eu não poderia ser o modelo de detetive que sempre acerta?

13 de mar. de 2005

Correndo nas sombras

Ele parecia ser um cara normal. Até bonitinho, com seu jeito tímido de se aproximar. Como eu ia saber que era mais um dos mercenários contratados por meu pai para me capturar de volta? Geralmente os “corredores das sombras” têm feições sombrias e não freqüentam lugares sociais. Um rapaz da minha idade, de cara limpa, bem vestido e simpático era justamente o oposto do que eu esperava.

Maldizendo-me por não ter feito um ciber-implante acelerador, dobrei uma esquina. Escondida atrás de um container de lixo, recuperei o fôlego enquanto pensava. Ele provavelmente não ia desistir fácil, já que papai oferecera uma recompensa de mais de 500000 nuiens para me ter de volta viva. Morta, acho que eu valho um pouco menos. Só por causa das aparências. A filha do presidente da Renraku Corporação perdida no meio das ruas de Seattle, vivendo de trabalhos mercenários? Isso não podia acontecer. E por isso, estou com a metade dos mercenários da Costa Oeste em meu encalço.

Uma sensação de perigo sacudiu o meu corpo. Eram os meus sentidos aguçados cirurgicamente avisando que o estranho estava vindo. E só então me dei conta de que estava em um beco sem saída. Ótimo, e agora? Olhei para cima e vi uma sacada. A parte velha da cidade ainda mantém alguns prédios antigos, o que estava sendo providencial nesse instante.

Torcendo para que minhas pernas reforçadas com prótese de silício orgânico dessem conta do recado, pulei. Consegui a custo me pendurar e subir. Logo depois, meu perseguidor surgiu e pareceu surpreso ao não me encontrar. Sorri em silêncio, buscando estar o mais parada possível, para que ele não percebesse. Não sabia quais implantes ele teria, mas não deviam ser poucos. Ele parecia muito diferente dos corredores que eu conhecia, contando os nuiens para cada mísero implante de ligação neural. Provavelmente, era empregado de alguma corporação. Provavelmente da Renraku mesmo. Com certeza, ele tinha visão aprimorada, pois conseguira ver a arma no meu bolso esquerdo... E reflexos acelerados também, pois desviara da faca com calma que eu joguei quando ainda estávamos no bar.

Ele sumiu. Não o via mais lá embaixo, será que desistira? Levantei-me devagarinho, porém estaquei surpresa ao ouvir uma voz ao meu lado.

- Procurando alguém, docinho? Eu pude ouvir sua respiração lá de baixo.

Ele estava flutuando ao meu lado. Botas antigravitacionais, um absurdo de caras e só disponíveis em catálogos secretos. E obviamente também comprara sentidos aguçados. Entreguei-me, e descemos juntos.

- Muito bem. Agora vamos, que seu pai está ansioso por vê-la.

O sorriso cínico dele me irritou. Eu parecia derrotada, né? Estava andando na frente, parei. Olhei nos olhos dele, e em um movimento rápido, o beijei profundamente na boca.

Uma das regras para a sobrevivência na rua é jamais misturar negócios com prazer. Não é uma questão de simples ética. Elevação de adrenalina e libido não combinam com certos ciber-implantes ligados. Principalmente, reflexos acelerados e sentidos aguçados. O resultado é uma pane no sistema.

Meu captor caiu no chão, os circuitos em choque. Ele pensou que eu era uma menininha mimada que fugiu de casa por rebeldia. Não sabia que as aparências enganam? Não me preocupei mais. Em pouco tempo, alguém viria socorre-lo. E eu voltei para o mundo das sombras, que eu escolhera como lar.

21 de fev. de 2005

A vila na areia

- Por mil relâmpagos. Juro que aconteceu assim! Vi como se fosse essa garrafa de rum! Eu e os rapazes do “Sereia do Inferno” éramos o pior bando de piratas e assassinos que já percorreu os Sete Mares. Os covardes da Marinha do rei tremiam só com a menção do nosso nome.
“Ouvimos falar de uma pequena vila de pescadores, onde as velhinhas guardavam baús debaixo de suas camas...repletos de ouro que extraíam ilegalmente. Descemos do navio em um único grande bote, na hora mais escura de uma noite sem lua, quando nem o vento fazia barulho e o mar não se movia.”
“Eram uma dúzia de cabanas de palha, espalhadas pela areia. Entramos em cada um dos barracos. Por Poseidon, cada cama de velha que achamos tinha debaixo um baú com ouro! Os imbecis que acordaram, nós cortamos as gargantas. E juro, por mil caranguejos, que somente as velhas não acordaram! Todo o ouro que conseguimos, juntamos no centro da aldeia e distribuímos entre os homens.”
“Mas a Sorte não era nossa. Um dos homens achou barris de cerveja. Todos começamos a beber e cantar. O dia amanheceu e estávamos lá, estirados, bêbados como porcos. Pois não conseguimos levantar durante o dia, e só quando chegou o anoitecer eu recobrei os sentidos. Pelos deuses do Mar, preferia ter continuado dormindo! Os miseráveis dos aldeões que matamos estavam em pé, suas gargantas abertas, vindo em nossa direção! E as malditas velhas atrás, rindo! Era uma aldeia de bruxas, amaldiçoadas sejam, cadelas, amantes do Diabo! Gritei, o máximo que podia, para que os homens acordassem!”
Nem todos conseguiram. Os que os defuntos alcançaram, eram estraçalhados ali, perante meus olhos, como se fossem carne! Lutamos bravamente, com nossas facas e punhais. Mas aos poucos os desgraçados chegavam mais perto, arreganhando os dentes em um sorriso sangrento. E as putas do Demônio, as velhas, riam! Eu e meus homens largamos os punhais e corremos, como raios, para alcançar o bote, que estava perto. Ah, mas por Belzebu, não conseguimos. Somente eu consegui!”
Em sua voz rouca e grasnida, o papagaio que ouvia a história, cantou um pequeno refrão.
- Capitão, capitão
É um covardão.
Deixou seus homens na mão.
Agora vai pra Inglaterra.
Vai virar sabão!
O velho pirata atirou a garrafa vazia no pássaro, que se desviou e continuou a cantar. O navio de bandeira inglesa, que deixara Jamestown há algumas semanas, o encontrara delirando, dentro de um bote, no meio do mar das Caraíbas. Dizia coisas sobre mortos que andavam e bruxas, e ouro puro. Não deram atenção de início, mas descobriram que era Alonso Hernandez, capitão do “Sereia do Inferno”, um dos mais perigosos piratas daquelas partes do oceano. Não encontraram sinal do navio, e concluíram que os outros deviam ter se amotinado e o abandonado. O colocaram em uma cabine, e o esqueceram lá até chegarem, quando o encontraram estrangulado com um lençol pendurado no teto.
Jamais se soube o destino do “Sereia do Inferno".

16 de fev. de 2005

Vazio

Mais um texto para a OE, que provavelmente não vai agradar

Vazio

O som não existe no vazio do espaço. As estrelas brilham, mas sua luz é
fria. Milhares e milhares de pontos luminosos no espaço.

Uma explosão no conversor de anti-matéria, uma fenda no casco da nave...
Como engenheiro, ele saiu para consertar a nave. O rasgo foi soldado, e lá
dentro o conversor voltara a funcionar.

Mas antes que pudesse voltar ao interior da nave, uma falha no imã das botas
o jogara longe da nave. A bela deusa prateada sequer reparou que ele ficara
para trás.

Flutuava, sem saber em que direção olhar. Nenhum som, nenhum calor,
nada...só uma luz fria e difusa ao seu redor. E ele, um pequeno corpo a
girar no infinito.

13 de fev. de 2005

Michelle

(Mais um mini conto, dessa vez abordando o meu tema de trabalho, de forma indireta. Não foi muito aplaudido...)

Michelle

Era um belo dia de junho, e o calor aquecia as belas terras ao redor do castelo de Châlon-sur-le-Saône, onde a corte ducal estava reunida. Michelle, a jovem princesa nora do duque João, alcunhado de Sem-Medo por sua valentia, sentia-se feliz como nunca. A doentia Paris não lhe fazia falta, pois era no campo ou na pequena cidade de Dijon que estava realmente em casa. Sua criada, uma bela jovem da região da Flandres, reparou em sua alegria.
-Feliz, senhora?
-Como não estar? Hoje, com a graça do Senhor Deus, o duque, meu sogro, regressará após ter feito a paz final com meu irmão, o Delfim Carlos. Depois de tantas mortes, poderemos viver em paz... Ou melhor, minhas duas famílias lutarão lado a lado contra os verdadeiros inimigos, os ingleses.
A criada assentiu com a cabeça. E Michelle de França continuou a se preparar para quando seu sogro chegasse. A guerra, que começara há mais de dez anos com o assassinato do devasso duque de Orleáns, dividira o país, massacrando exércitos dos dois lados.
Antes mesmo das sextas, ouviu passos do lado de fora de seus aposentos. Preparou-se para saudar seu sogro, mas quem entrou foi Felipe, seu marido. O rosto severo estava marcado por uma expressão que misturava tristeza e ódio. Olhou-a por um longo instante, antes de finalmente dizer, em voz grave.
-Senhora, seu irmão assassinou meu pai. – e saiu, sem nada mais dizer. Um de seus escudeiros, um jovem flamengo de expressão inteligente, ficou por mais um instante, como se pedisse desculpas pela atitude do novo senhor da casa, antes de fazer uma reverência e também se retirar.
Porém, Michelle deixou-se ficar ali, atônita. A morte do duque significava muito para ela. Desde que chegara naquela corte, como uma estranha de uma casa inimiga, fora acolhida de braços abertos por seu sogro. Era como se perdesse um pai... E ainda mais a expressão do seu marido, como se ela tivesse culpa dos vícios de seu irmão, que matara um homem sob uma bandeira de trégua. Lágrimas correram por seu rosto enquanto deixou-se desfalecer.

Longos anos passaram. A guerra terminou, e veio a paz. Michelle não chegou a ver a assinatura do tratado de Arras, que terminou as agressividades entre seu irmão e seu marido. Morreu no mesmo ano em que o duque humilhou o Delfim, fazendo-o ceder a coroa ao filho do rei inglês. E em seu estúdio, o escudeiro que se tornara indiciário escrevia as Crônicas de tudo que havia acontecido. Ao descrever as esposas de seu amo e senhor, n Georges Chastellain não esqueceu da jovem princesa que morreu de desgosto com a guerra que partiu a França

“Et Michelle, ma belle princesse et duchesse, qui a mourrit sans voir la paix. Son couer n’a pas se diviser comme ses pays.”

“E Michelle, minha bela princesa e duquesa, que morreu sem ver a paz. Seu coração não se dividiu como o seu país.”

2 de jan. de 2005

Sol e Chuva

(Um mini conto escrito para a Oficina de Escritores)

A chuva caia torrencialmente, encharcando suas roupas. Mesmo assim, ela não se mexia. Ficou estática, para a lápide. O cabelo pingava, as gotas grossas corriam pelo seu rosto. Alguns poderiam entrever lágrimas nos seus olhos.
Não havia nenhuma. Ela olhava a lápide e em seu interior estava feliz. Ninguém teria como saber que ali estava o homem que a aprisionara por anos a fio. Muito menos desconfiavam que o seu cadáver, enterrado naquele dia, revelaria veneno se fosse devidamente analisado. Dois dias atrás, o sol brilhava, e ela serviu café ao seu marido...com um componente a mais.
Agora, a chuva caia, molhando a terra. Porém, aos seus olhos, era o primeiro dia de sol em anos.

4 de nov. de 2004

O último soneto

(esse conto foi a minha primeira participação em uma oficina literária via web. Não agradou muita gente, só teve dois votos. Mas eu gostei dele...Por isso, ele veio pra cá...)

Escreveria um soneto. Não apenas mais um, dos muitos. Mas "o" soneto. E então ela entenderia. Sim, naquela derradeira demonstração de sua pena, finalmente revelaria seu coração. Olhou a garrafa de vinho, largada pela metade, em cima da mesa. Depois de terminar o soneto, usaria aquele mesmo líquido, escuro e cor de sangue, e acabaria com tudo. Era só misturar algumas gotas de um veneno, de preferência o mais raro e exótico possível. E teria um fim digno do seu último soneto.
Porque este seria magistral. Sua obra-prima, que o tornaria finalmente reconhecido. E que faria com que ela o amasse. Há quanto tempo a observava em silêncio, enquanto passava pela rua, sempre acompanhada por sua dama de companhia. Cabelos de ébano, pele de alabastro, olhos como o mar velados pelas cortinas de veludo que eram seus longos cílios.
Sequer sabia seu nome. Não tinha idéia de onde morava, ou o que fazia. Ela sequer sonhava que ele, pobre infeliz, existisse. Mas isso não era necessário. Ela era a sua musa, o seu amor. Seria de sua imagem, perfeita, limpa, pura, sem sequer a macula do conhecimento invasivo, que ele tiraria a inspiração para o soneto perfeito. Que seria infinitamente superior àqueles versinhos medíocres que publicava em revistas literárias, e que lhe davam o dinheiro, aquele sujo capital necessário para viver.
Levantou-se, e percorreu o quarto imundo até a janela. Na noite fria, o luar transparecia sereno, lembrando a brancura da pele dela. Sim, escreveria um soneto. O mais belo de todos. E morreria, por suas próprias mãos. Assim se vingaria de todos os que o humilharam, e também dela, que passava por sua vida, como se tivesse esse direito.
Entrou em um delírio febril. Imaginou-a de luto, chorando desconsolada, sobre seu túmulo. Em suas mãos, uma cópia do soneto, suja e amassada, manchada de lágrimas. Viu-a definhando de tristeza pelo amor que tivera sem saber. E no auge da alucinação, estava lá quando ela, em um suspiro sentido, entregou a alma, para finalmente se entregar ao seu amor.
Riu, até perder o fôlego. Começou a tossir, aquela tosse doentia que o perseguia há anos. Sentou-se na cadeira e entregou-se aos espasmos dos pulmões doentes. O velho gosto de ferro subiu a sua boca, deixando um travo amargo. Com dificuldade, levantou-se e buscou um lenço para limpar os lábios. Quando o tirou da boca, estava manchado de sangue. Outro acesso de tosse o deixou ofegante. A dor tomou seu corpo.
Abriu a pequena caixa de remédios. Pegou a dose de láudano que tiraria a dor. Mas um terceiro e mais brutal acesso de tosse fez o medicamento cair no chão. Ajoelhou-se, ainda tossindo. A vista ficou turva, sentia frio. O desespero tomou conta de si.
Não podia morrer agora, sem escrever seu último soneto.
Enquanto visualizava a sua musa, ele veio a sua mente. Completo. E ele viu que era realmente genial. Mas já era tarde para o derradeiro soneto.