15 de abr. de 2005

Sobre o tempo

Tempo.
Que corre, que urge.
Que vai e que volta,

Tempo.
De matar e viver.
De andar e correr.

Tempo.
Do arqueólogo ou historiador.
Do poeta ou do escritor.

Tempo.
Cura feridas, mas traz outras.
Apaga lembranças, as fabricando de novo.

Tempo.
Que vai, que volta.
Que corre e que urge.

Poema escrito na luz de uma vela

O fogo
Cria a luz
E as sombras.
Luz que tremula,
Que gira e revolteia.
Luz de uma vela.
Será extinguida
Com o sopro,
Do vento.

13 de mar. de 2005

Correndo nas sombras

Ele parecia ser um cara normal. Até bonitinho, com seu jeito tímido de se aproximar. Como eu ia saber que era mais um dos mercenários contratados por meu pai para me capturar de volta? Geralmente os “corredores das sombras” têm feições sombrias e não freqüentam lugares sociais. Um rapaz da minha idade, de cara limpa, bem vestido e simpático era justamente o oposto do que eu esperava.

Maldizendo-me por não ter feito um ciber-implante acelerador, dobrei uma esquina. Escondida atrás de um container de lixo, recuperei o fôlego enquanto pensava. Ele provavelmente não ia desistir fácil, já que papai oferecera uma recompensa de mais de 500000 nuiens para me ter de volta viva. Morta, acho que eu valho um pouco menos. Só por causa das aparências. A filha do presidente da Renraku Corporação perdida no meio das ruas de Seattle, vivendo de trabalhos mercenários? Isso não podia acontecer. E por isso, estou com a metade dos mercenários da Costa Oeste em meu encalço.

Uma sensação de perigo sacudiu o meu corpo. Eram os meus sentidos aguçados cirurgicamente avisando que o estranho estava vindo. E só então me dei conta de que estava em um beco sem saída. Ótimo, e agora? Olhei para cima e vi uma sacada. A parte velha da cidade ainda mantém alguns prédios antigos, o que estava sendo providencial nesse instante.

Torcendo para que minhas pernas reforçadas com prótese de silício orgânico dessem conta do recado, pulei. Consegui a custo me pendurar e subir. Logo depois, meu perseguidor surgiu e pareceu surpreso ao não me encontrar. Sorri em silêncio, buscando estar o mais parada possível, para que ele não percebesse. Não sabia quais implantes ele teria, mas não deviam ser poucos. Ele parecia muito diferente dos corredores que eu conhecia, contando os nuiens para cada mísero implante de ligação neural. Provavelmente, era empregado de alguma corporação. Provavelmente da Renraku mesmo. Com certeza, ele tinha visão aprimorada, pois conseguira ver a arma no meu bolso esquerdo... E reflexos acelerados também, pois desviara da faca com calma que eu joguei quando ainda estávamos no bar.

Ele sumiu. Não o via mais lá embaixo, será que desistira? Levantei-me devagarinho, porém estaquei surpresa ao ouvir uma voz ao meu lado.

- Procurando alguém, docinho? Eu pude ouvir sua respiração lá de baixo.

Ele estava flutuando ao meu lado. Botas antigravitacionais, um absurdo de caras e só disponíveis em catálogos secretos. E obviamente também comprara sentidos aguçados. Entreguei-me, e descemos juntos.

- Muito bem. Agora vamos, que seu pai está ansioso por vê-la.

O sorriso cínico dele me irritou. Eu parecia derrotada, né? Estava andando na frente, parei. Olhei nos olhos dele, e em um movimento rápido, o beijei profundamente na boca.

Uma das regras para a sobrevivência na rua é jamais misturar negócios com prazer. Não é uma questão de simples ética. Elevação de adrenalina e libido não combinam com certos ciber-implantes ligados. Principalmente, reflexos acelerados e sentidos aguçados. O resultado é uma pane no sistema.

Meu captor caiu no chão, os circuitos em choque. Ele pensou que eu era uma menininha mimada que fugiu de casa por rebeldia. Não sabia que as aparências enganam? Não me preocupei mais. Em pouco tempo, alguém viria socorre-lo. E eu voltei para o mundo das sombras, que eu escolhera como lar.

O rei está morto...Viva o Rei!

- Esta é a maior descoberta dos últimos dois milênios! Uma nave-tumba da civilização perdida dos Alinontes! E nós, terrestres, fomos os primeiros a encontra-la! Isso irá matar os arbussianos de inveja.
Minha companheira preparava-se para abordar a misteriosa nave que surgira nos nossos sensores poucos dias atrás. Eu não estava muito excitado com a idéia. Primeiro porque não sou um arqueólogo espacial como ela, e segundo porque não gosto do pensamento de que iremos violar uma tumba, seja ela uma nave ou não. Chamem de arcaica superstição, não ligo. Um homem pode ter seus pudores.
- Você vem ou ainda está com medo de “fantasmas”?
Tanilke sempre debochara do meu medo.Eu não ligava. Achava – como ainda acho – que não nos custa nada deixar os mortos em paz. Mas o salário como piloto da nave de pesquisa arqueologia Champollion era tentador demais. E como eu poderia desconfiar de que iríamos encontrar uma nave-tumba logo de cara?
A contragosto, vesti meu uniforme espacial. Não sabíamos como poderia estar a atmosfera dentro da nave. Fechada há cinco mil anos, provavelmente não seria saudável arriscar entrar desprotegido.
Nos teletransportamos para a central de comando. Os computadores, alimentados por uma bateria auto-recarregável, altamente radioativa, mostravam suas luzes difusas. Não havia outra iluminação. Senti um calafrio, como se algo gelado percorresse minha espinha. Na penumbra, vi Tanilke se aproximar de um painel e digitar algumas ordens. A claridade aumentou, e vi uma malha de imensos corredores. Dirigi-me, inconsciente, ao corredor mais central, o que fez minha parceira ficar surpresa. Seguimos caminho.

Nas paredes, esculpida em hologravuras delicadas e detalhistas, estava a história do homem que mandaram construir a nave. Segundo minha amiga, era um dos últimos reis de uma das primeiras dinastias imperiais dos Alinontes. Vivera longamente e fora sobre seu domínio que o Império atingira sua máxima extensão. Porém, ao envelhecer, adoecera gravemente. Nenhum dos médicos conseguiu descobrir o que causara a doença, que deformara tanto o corpo quanto a mente do soberano. Quando a morte o buscara, fora um alívio para todos e seu filho assumira, mantendo a prosperidade do reino. Uma estranha sensação de dejá-vu me assaltou ao ver as gravuras e ouvir a explicação dela. Um ódio inexplicável pelos médicos me tomou, no entanto este não era nada comparado ao que senti pelo filho e sucessor do morto. Sacudi a cabeça.
As gravuras terminavam exatamente no final do corredor. Uma imensa porta bloqueava a passagem. Não que fosse empecilho para minha jovem amiga. Ela desbloqueou o canal de comunicação, ligando os amplificadores. Entoou uma sucessão de notas, agudas, que eu reconheci como uma fórmula mágica. Um eco inexplicável se ouvia, como se mais alguém cantasse junto.
Todos os meus sentidos gritavam para que eu saísse dali. Infelizmente, o contrato é claro. Eu tinha que acompanhar a equipe – no caso, Tanilke – e auxiliar no que fosse possível.

Entramos na câmara fúnebre. Ali, a escuridão era total, menos por uma claridade azulada que saía de um objeto de metal ricamente trabalhado. O sarcófago de Artrouewy. Feito com o alumi-silicato, tão comum no hemisfério norte de Alinon, e tão raro no nosso hemisfério sul. Só os melhores artesãos eram capazes de trabalhar bem aquele metal. Um momento de fria lucidez me assaltou. Aqueles pensamentos não eram meus. Foi quando me dei conta que a arqueóloga lia as inscrições no sarcófago. Tentei gritar para que ela não terminasse. De alguma maneira, eu sabia o que era aquilo. Um encantamento de ressurreição.

Mas tarde demais. Quando falei, não era mais com a minha voz. E o fiz em uma língua estranha, repleta de assovios e sons agudos.

1 de mar. de 2005

Alma Carioca

Eu canto o Rio. Mas canto o Rio que eu conheço e que meu pai escolheu.
O Rio em que meu avô morreu.

Tive dois namorados no Meier, um em Inhauma.
Uma grande amiga em Anchieta, outra na Pavuna.

Meu eterno professor mora nas Laranjeiras.
No meu segundo grau, ia muito na Praça da Bandeira.

Em Agua Santa, mora meu ex-orientador.
De Bangu pra Praça XV, só fui de parador...

Minha mãe morou em Sulacap e no Flamengo.
Uma tia, que é paraguaia, tem casa em Realengo.

Meu padrinho mora na Barra da Tijuca,
Mas foi na Rua Ceará que eu aprendi a jogar sinuca.

Vila Isabel, Grajaú, Andaraí,
Del Castilho, Todos os Santos, Cachambi...

Marechal Hermes, Lins, Engenho de Dentro,
Deodoro, Magalhães Bastos, Bento Ribeiro,
Urca, Gavea, Copacabana e Ipanema...

Isso é o que eu conheço do Rio de Janeiro.

21 de fev. de 2005

A vila na areia

- Por mil relâmpagos. Juro que aconteceu assim! Vi como se fosse essa garrafa de rum! Eu e os rapazes do “Sereia do Inferno” éramos o pior bando de piratas e assassinos que já percorreu os Sete Mares. Os covardes da Marinha do rei tremiam só com a menção do nosso nome.
“Ouvimos falar de uma pequena vila de pescadores, onde as velhinhas guardavam baús debaixo de suas camas...repletos de ouro que extraíam ilegalmente. Descemos do navio em um único grande bote, na hora mais escura de uma noite sem lua, quando nem o vento fazia barulho e o mar não se movia.”
“Eram uma dúzia de cabanas de palha, espalhadas pela areia. Entramos em cada um dos barracos. Por Poseidon, cada cama de velha que achamos tinha debaixo um baú com ouro! Os imbecis que acordaram, nós cortamos as gargantas. E juro, por mil caranguejos, que somente as velhas não acordaram! Todo o ouro que conseguimos, juntamos no centro da aldeia e distribuímos entre os homens.”
“Mas a Sorte não era nossa. Um dos homens achou barris de cerveja. Todos começamos a beber e cantar. O dia amanheceu e estávamos lá, estirados, bêbados como porcos. Pois não conseguimos levantar durante o dia, e só quando chegou o anoitecer eu recobrei os sentidos. Pelos deuses do Mar, preferia ter continuado dormindo! Os miseráveis dos aldeões que matamos estavam em pé, suas gargantas abertas, vindo em nossa direção! E as malditas velhas atrás, rindo! Era uma aldeia de bruxas, amaldiçoadas sejam, cadelas, amantes do Diabo! Gritei, o máximo que podia, para que os homens acordassem!”
Nem todos conseguiram. Os que os defuntos alcançaram, eram estraçalhados ali, perante meus olhos, como se fossem carne! Lutamos bravamente, com nossas facas e punhais. Mas aos poucos os desgraçados chegavam mais perto, arreganhando os dentes em um sorriso sangrento. E as putas do Demônio, as velhas, riam! Eu e meus homens largamos os punhais e corremos, como raios, para alcançar o bote, que estava perto. Ah, mas por Belzebu, não conseguimos. Somente eu consegui!”
Em sua voz rouca e grasnida, o papagaio que ouvia a história, cantou um pequeno refrão.
- Capitão, capitão
É um covardão.
Deixou seus homens na mão.
Agora vai pra Inglaterra.
Vai virar sabão!
O velho pirata atirou a garrafa vazia no pássaro, que se desviou e continuou a cantar. O navio de bandeira inglesa, que deixara Jamestown há algumas semanas, o encontrara delirando, dentro de um bote, no meio do mar das Caraíbas. Dizia coisas sobre mortos que andavam e bruxas, e ouro puro. Não deram atenção de início, mas descobriram que era Alonso Hernandez, capitão do “Sereia do Inferno”, um dos mais perigosos piratas daquelas partes do oceano. Não encontraram sinal do navio, e concluíram que os outros deviam ter se amotinado e o abandonado. O colocaram em uma cabine, e o esqueceram lá até chegarem, quando o encontraram estrangulado com um lençol pendurado no teto.
Jamais se soube o destino do “Sereia do Inferno".

16 de fev. de 2005

Vazio

Mais um texto para a OE, que provavelmente não vai agradar

Vazio

O som não existe no vazio do espaço. As estrelas brilham, mas sua luz é
fria. Milhares e milhares de pontos luminosos no espaço.

Uma explosão no conversor de anti-matéria, uma fenda no casco da nave...
Como engenheiro, ele saiu para consertar a nave. O rasgo foi soldado, e lá
dentro o conversor voltara a funcionar.

Mas antes que pudesse voltar ao interior da nave, uma falha no imã das botas
o jogara longe da nave. A bela deusa prateada sequer reparou que ele ficara
para trás.

Flutuava, sem saber em que direção olhar. Nenhum som, nenhum calor,
nada...só uma luz fria e difusa ao seu redor. E ele, um pequeno corpo a
girar no infinito.

13 de fev. de 2005

Michelle

(Mais um mini conto, dessa vez abordando o meu tema de trabalho, de forma indireta. Não foi muito aplaudido...)

Michelle

Era um belo dia de junho, e o calor aquecia as belas terras ao redor do castelo de Châlon-sur-le-Saône, onde a corte ducal estava reunida. Michelle, a jovem princesa nora do duque João, alcunhado de Sem-Medo por sua valentia, sentia-se feliz como nunca. A doentia Paris não lhe fazia falta, pois era no campo ou na pequena cidade de Dijon que estava realmente em casa. Sua criada, uma bela jovem da região da Flandres, reparou em sua alegria.
-Feliz, senhora?
-Como não estar? Hoje, com a graça do Senhor Deus, o duque, meu sogro, regressará após ter feito a paz final com meu irmão, o Delfim Carlos. Depois de tantas mortes, poderemos viver em paz... Ou melhor, minhas duas famílias lutarão lado a lado contra os verdadeiros inimigos, os ingleses.
A criada assentiu com a cabeça. E Michelle de França continuou a se preparar para quando seu sogro chegasse. A guerra, que começara há mais de dez anos com o assassinato do devasso duque de Orleáns, dividira o país, massacrando exércitos dos dois lados.
Antes mesmo das sextas, ouviu passos do lado de fora de seus aposentos. Preparou-se para saudar seu sogro, mas quem entrou foi Felipe, seu marido. O rosto severo estava marcado por uma expressão que misturava tristeza e ódio. Olhou-a por um longo instante, antes de finalmente dizer, em voz grave.
-Senhora, seu irmão assassinou meu pai. – e saiu, sem nada mais dizer. Um de seus escudeiros, um jovem flamengo de expressão inteligente, ficou por mais um instante, como se pedisse desculpas pela atitude do novo senhor da casa, antes de fazer uma reverência e também se retirar.
Porém, Michelle deixou-se ficar ali, atônita. A morte do duque significava muito para ela. Desde que chegara naquela corte, como uma estranha de uma casa inimiga, fora acolhida de braços abertos por seu sogro. Era como se perdesse um pai... E ainda mais a expressão do seu marido, como se ela tivesse culpa dos vícios de seu irmão, que matara um homem sob uma bandeira de trégua. Lágrimas correram por seu rosto enquanto deixou-se desfalecer.

Longos anos passaram. A guerra terminou, e veio a paz. Michelle não chegou a ver a assinatura do tratado de Arras, que terminou as agressividades entre seu irmão e seu marido. Morreu no mesmo ano em que o duque humilhou o Delfim, fazendo-o ceder a coroa ao filho do rei inglês. E em seu estúdio, o escudeiro que se tornara indiciário escrevia as Crônicas de tudo que havia acontecido. Ao descrever as esposas de seu amo e senhor, n Georges Chastellain não esqueceu da jovem princesa que morreu de desgosto com a guerra que partiu a França

“Et Michelle, ma belle princesse et duchesse, qui a mourrit sans voir la paix. Son couer n’a pas se diviser comme ses pays.”

“E Michelle, minha bela princesa e duquesa, que morreu sem ver a paz. Seu coração não se dividiu como o seu país.”

2 de jan. de 2005

Sol e Chuva

(Um mini conto escrito para a Oficina de Escritores)

A chuva caia torrencialmente, encharcando suas roupas. Mesmo assim, ela não se mexia. Ficou estática, para a lápide. O cabelo pingava, as gotas grossas corriam pelo seu rosto. Alguns poderiam entrever lágrimas nos seus olhos.
Não havia nenhuma. Ela olhava a lápide e em seu interior estava feliz. Ninguém teria como saber que ali estava o homem que a aprisionara por anos a fio. Muito menos desconfiavam que o seu cadáver, enterrado naquele dia, revelaria veneno se fosse devidamente analisado. Dois dias atrás, o sol brilhava, e ela serviu café ao seu marido...com um componente a mais.
Agora, a chuva caia, molhando a terra. Porém, aos seus olhos, era o primeiro dia de sol em anos.

4 de nov. de 2004

O último soneto

(esse conto foi a minha primeira participação em uma oficina literária via web. Não agradou muita gente, só teve dois votos. Mas eu gostei dele...Por isso, ele veio pra cá...)

Escreveria um soneto. Não apenas mais um, dos muitos. Mas "o" soneto. E então ela entenderia. Sim, naquela derradeira demonstração de sua pena, finalmente revelaria seu coração. Olhou a garrafa de vinho, largada pela metade, em cima da mesa. Depois de terminar o soneto, usaria aquele mesmo líquido, escuro e cor de sangue, e acabaria com tudo. Era só misturar algumas gotas de um veneno, de preferência o mais raro e exótico possível. E teria um fim digno do seu último soneto.
Porque este seria magistral. Sua obra-prima, que o tornaria finalmente reconhecido. E que faria com que ela o amasse. Há quanto tempo a observava em silêncio, enquanto passava pela rua, sempre acompanhada por sua dama de companhia. Cabelos de ébano, pele de alabastro, olhos como o mar velados pelas cortinas de veludo que eram seus longos cílios.
Sequer sabia seu nome. Não tinha idéia de onde morava, ou o que fazia. Ela sequer sonhava que ele, pobre infeliz, existisse. Mas isso não era necessário. Ela era a sua musa, o seu amor. Seria de sua imagem, perfeita, limpa, pura, sem sequer a macula do conhecimento invasivo, que ele tiraria a inspiração para o soneto perfeito. Que seria infinitamente superior àqueles versinhos medíocres que publicava em revistas literárias, e que lhe davam o dinheiro, aquele sujo capital necessário para viver.
Levantou-se, e percorreu o quarto imundo até a janela. Na noite fria, o luar transparecia sereno, lembrando a brancura da pele dela. Sim, escreveria um soneto. O mais belo de todos. E morreria, por suas próprias mãos. Assim se vingaria de todos os que o humilharam, e também dela, que passava por sua vida, como se tivesse esse direito.
Entrou em um delírio febril. Imaginou-a de luto, chorando desconsolada, sobre seu túmulo. Em suas mãos, uma cópia do soneto, suja e amassada, manchada de lágrimas. Viu-a definhando de tristeza pelo amor que tivera sem saber. E no auge da alucinação, estava lá quando ela, em um suspiro sentido, entregou a alma, para finalmente se entregar ao seu amor.
Riu, até perder o fôlego. Começou a tossir, aquela tosse doentia que o perseguia há anos. Sentou-se na cadeira e entregou-se aos espasmos dos pulmões doentes. O velho gosto de ferro subiu a sua boca, deixando um travo amargo. Com dificuldade, levantou-se e buscou um lenço para limpar os lábios. Quando o tirou da boca, estava manchado de sangue. Outro acesso de tosse o deixou ofegante. A dor tomou seu corpo.
Abriu a pequena caixa de remédios. Pegou a dose de láudano que tiraria a dor. Mas um terceiro e mais brutal acesso de tosse fez o medicamento cair no chão. Ajoelhou-se, ainda tossindo. A vista ficou turva, sentia frio. O desespero tomou conta de si.
Não podia morrer agora, sem escrever seu último soneto.
Enquanto visualizava a sua musa, ele veio a sua mente. Completo. E ele viu que era realmente genial. Mas já era tarde para o derradeiro soneto.