12 de jun. de 2005

Chuva de Cinzas

inspirado em uma música do Eurithimics

A chuva cai como uma memória. Os raios de sol já se apagaram há muitos anos, e a desolação que me cerca já não incomoda mais. Ando em frente, ignorando os escombros que entrevejo aqui e ali. Faz dias que não vejo nada nem ninguém vivo, mas pouco me importo. Estou viva, e para mim basta.

Caos e guerra destruíram tudo o que conhecia. Lembro de que fui jovem um dia, e que havia felicidade na dureza da vida. Não mais, não mais. Agora, se soltar um grito, nada nem ninguém irá me responder. Somente o eco triste de minha própria voz refletida nas ruínas de uma sociedade doente. Antes, escavávamos resquícios dos que vieram antes de nós. Deixamos todos os indícios para serem descobertos, mas de onde sairão os arqueólogos que irão nós desvendar?

Continuo meu andar solitário. Não sei onde estou, porém o que importa? Os nomes desapareceram junto com aqueles que lhes davam significado. Tampouco lembro do meu próprio. Sei que já tive um, que era repetido por pessoas que me amavam.

Isso foi antes. O agora é cinza e eu prossigo. Minha viagem não tem rumo, nem sentido. Foi apenas o que me restou, e é isso que sigo fazendo.

22 de mai. de 2005

As asas da borboleta

O amor machuca as asas da borboleta. Presa na roda do destino, sem direção para ir, debatendo-se...

Pedaços de cor caem como memórias que vão sendo esquecidas. Uma conversa sobre livros que nunca mais será lembrada, um filme ruim em boa companhia que jamais fará surgir um sorriso novamente.

E o amor quebra as asas da borboleta. Ainda presa, sem saber o que fazer, mas quieta.

O que sobrou das asas vai esmaecendo. Além de lembranças perdidas, são os sentimentos que passam a se entorpecer. A saudade de uma ausência mais prolongada, a alegria de um reencontro, a tristeza por uma briga.

E já não existe mais amor para terminar com as asas da borboleta. Mesmo ela desistiu de tudo e exausta se deixou cair. E finalmente escapou da roda do destino.

10 de mai. de 2005

Lua Negra

Foi a noite mais escura da minha vida. O ar estava denso e pesado, e nenhuma estrela brilhava. Kahntsi Ehnita, o xamã responsável pelo ritual das noites sem lua, havia convocado uma reunião de todos os chefes dos Hodenosaunee. Meu tio, irmão de minha mãe, estava lá representando nossa nação, caienga. Nos chamavam de ‘mohawks’, por nossa ferocidade. E o acompanhei, orgulhoso.

Não era uma reunião normal. O Conselho havia se reunido duas luas antes. Não estávamos em guerra, não era preciso reunir os chefes. Tremi na minha roupa nova. Todos esperavam algo de ruim a ser dito. Os chefes das Cinco Nações estavam frente a frente na grande fogueira. Meu tio postou-se do lado do chefe Seneca e do chefe Odonanga, como de costume, por serem as nações que fundaram a nossa união. Do outro lado, os chefes Oneida e Cayuga, os irmãozinhos. Seus clãs eram fortes, mas ainda não tanto quanto os dos irmãos mais velhos. Meu pai era filho do chefe Oneida; e me olhou com orgulho, ao me ver do lado de meu tio.

E o xamã Lua Negra entrou. Velho, como se tivesse existido desde que a Mãe de Todos criara o Grande Rio. Para nossa surpresa, não estava pintado, não usava paramentos. Vinha vestido com a sua roupa simples, se enfeitara com a sua dignidade e sua sabedoria. E, hoje, cativo daqueles que o mataram, ainda posso escutar sua voz trêmula. Lágrimas me subiram aos olhos, naquela noite. E como todos os outros, gritei pedindo auxílio da Mãe.

- Ah, irmãos, Nações das Grandes Casas! Nós, que somos irmãos das árvores, e que vivemos ao abrigo de sua sombra. Nós, que chamamos a águia de mestra e o urso de companheiro. Eis o que os sonhos me disseram!

“A Mãe me pegou pela mão. Mostrou as florestas em que vivemos, o rio que amamos e as praias de onde tiramos o peixe. Foi mais além e mostrou onde nossos outros irmãos vivem. As terras do bisão e da areia. Os lagos silenciosos. E apesar de sermos inimigos, meu coração ficou feliz ao vê-los. E olhei para a Mãe. Chorava, e suas lágrimas me levaram até o mar. Perguntei ‘Mãe, por que chora?’ E ela disse ‘Choro pelos meus filhos, todos eles. Do pequeno raccon ao grande bisão. Do pacífico dakota ao guerreiro mohawk. Tudo tem um fim, e o tempo dos meus filhos não irá durar. Vocês que correm livres serão prisioneiros. Passarão fome, terão sede e seus filhos serão mortos. E no fim, serão iguais a eles’. Não pude perguntar, pois ela me trouxe de volta. E eu acordei, e vi a noite sem estrelas. Agora sei que tudo está acabando.”

Gritamos noite adentro. Quando eles vieram, lutamos como se fossemos loucos, pois sabíamos que tudo estava perdido. Muitos morreram. Meu tio, meu pai e o xamã. Fui preso, e da minha prisão ainda ouço nossas vozes gritando. Hoje sei que naquela noite sem estrelas, todos os ‘índios’ gritaram à Mãe.

23 de abr. de 2005

O Senhor do Tempo

O Senhor do Tempo abriu as mãos. Os milênios escorreram como se fossem meros segundos. Galáxias surgiram, estrelas nasceram, planetas se formaram. Mas achou pouco.

O Senhor do Tempo soprou. E os milênios partiram-se em séculos. A Vida brotou: água, chuvas, vulcões e terremotos transformaram a sua obra anterior. Mesmo assim não ficou satisfeito.

O Senhor do Tempo abriu os olhos. Dos séculos, surgiram anos. Vieram as civilizações, grupos pequenos, pintores de paredes; viravam aglomerados informes de população, que construíam templos e obras gigantescos.

O Senhor do Tempo começou a se sentir satisfeito. E as civilizações começaram a se destruir, colocando toda a criação em risco. E Ele fechou os olhos.

Mas era tarde demais.

19 de abr. de 2005

O caso da estatueta roubada

(Texto que foi enviado para competir na OE, mas venceu por WO....)


Odeio clichês, chavões, estereótipos e outras faltas de originalidade. E foi impossível não pensar nesse meu sentimento quando ele entrou na minha sala. Suado, falando alto e gesticulando, sotaque carregado: o típico italiano, enfiado em um terno mal cortado. Disfarçando minha repulsa, indiquei a cadeira reservada aos clientes, enquanto fazia uma pose de atenção total. Minha mente divagou entre o péssimo caimento da vestimenta dele e quanto receberia por um trabalho para o carcamano. Um “porca miséria” aqui, outro lá, e pouco a pouco foi se desvendando uma trama confusa, monótona e...clichê. Uma estátua rara, de um Deus do Ódio polinésio, fora roubada da casa do italiano, e ele precisava recupera-la. Havia vendido para um cliente importante – era antiquário. Recebera o dinheiro, e não tinha mais o tal Deus.

Estava prestes a mandar o sujeito procurar a seção de “Achados e Perdidos” do Correio mais próximo, quando outro estereótipo entrou na minha sala. Loira, alta, bem feita de corpo, imensos olhos azuis nublados de lágrimas, lábios pintados com esmero, que tremiam no esforço para conter os soluços. Retiro o que disse. No fundo, clichês têm o seu lado interessante.

A deusa abraçou o velho, chamando o de pai, para minha grande felicidade. Depois virou em minha direção aquelas duas poças de luz. Pediu minha ajuda para o pai. Ao Inferno o meu preconceito em relação a clichês. Peguei meu sobretudo do cabide, atrás da porta, enfiei o chapéu na cabeça e dei passagem para a mocinha. O pai pediu para ficar, pois tinha medo dos assaltantes.

Ofereci meu braço a beldade loura que me acompanhou até a residência que dividia com o pai. Moravam bem, em uma mansão afastada da cidade. Chique. As luzes estavam apagadas, e minha acompanhante explicou que era porque os empregados já estavam dormindo. Fui imediatamente ao aposento indicado, onde a estatua ficava antes do assalto, enquanto ela disse que iria até a cozinha.

Olhando os cacos de vidro, antegozei as delícias de completar aquele caso. Iria me tornar um herói para aquela mulher estonteante, além de poder cobrar um preço bem substancial. Finalmente poderia deixar de ser um detetive de terceira e ir além. Bom, muito bom. Um som estridente tirou-me dessas deliciosas reflexões. Sirenes?



Uma semana depois, fui libertado. Finalmente os policiais acreditaram na minha história, principalmente depois do telefonema do meu senhorio, reclamando da porta aberta e do escritório saqueado. Sim, maldito seja o velho, além de assaltar uma mansão e me colocar de bode expiatório, levou tudo o que eu tinha no mundo.

Entrei na sala vazia, dei um murro na parede e gritei.

- Porca miséria, eu odeio italianos!

Ao invés de me sentir aliviado, a mão começou a latejar e doer. É como eu disse no princípio. Odeio clichês e coisas do tipo. Mas com tantos chavões ao meu redor, eu não poderia ser o modelo de detetive que sempre acerta?

15 de abr. de 2005

Sobre o tempo

Tempo.
Que corre, que urge.
Que vai e que volta,

Tempo.
De matar e viver.
De andar e correr.

Tempo.
Do arqueólogo ou historiador.
Do poeta ou do escritor.

Tempo.
Cura feridas, mas traz outras.
Apaga lembranças, as fabricando de novo.

Tempo.
Que vai, que volta.
Que corre e que urge.

Poema escrito na luz de uma vela

O fogo
Cria a luz
E as sombras.
Luz que tremula,
Que gira e revolteia.
Luz de uma vela.
Será extinguida
Com o sopro,
Do vento.

13 de mar. de 2005

Correndo nas sombras

Ele parecia ser um cara normal. Até bonitinho, com seu jeito tímido de se aproximar. Como eu ia saber que era mais um dos mercenários contratados por meu pai para me capturar de volta? Geralmente os “corredores das sombras” têm feições sombrias e não freqüentam lugares sociais. Um rapaz da minha idade, de cara limpa, bem vestido e simpático era justamente o oposto do que eu esperava.

Maldizendo-me por não ter feito um ciber-implante acelerador, dobrei uma esquina. Escondida atrás de um container de lixo, recuperei o fôlego enquanto pensava. Ele provavelmente não ia desistir fácil, já que papai oferecera uma recompensa de mais de 500000 nuiens para me ter de volta viva. Morta, acho que eu valho um pouco menos. Só por causa das aparências. A filha do presidente da Renraku Corporação perdida no meio das ruas de Seattle, vivendo de trabalhos mercenários? Isso não podia acontecer. E por isso, estou com a metade dos mercenários da Costa Oeste em meu encalço.

Uma sensação de perigo sacudiu o meu corpo. Eram os meus sentidos aguçados cirurgicamente avisando que o estranho estava vindo. E só então me dei conta de que estava em um beco sem saída. Ótimo, e agora? Olhei para cima e vi uma sacada. A parte velha da cidade ainda mantém alguns prédios antigos, o que estava sendo providencial nesse instante.

Torcendo para que minhas pernas reforçadas com prótese de silício orgânico dessem conta do recado, pulei. Consegui a custo me pendurar e subir. Logo depois, meu perseguidor surgiu e pareceu surpreso ao não me encontrar. Sorri em silêncio, buscando estar o mais parada possível, para que ele não percebesse. Não sabia quais implantes ele teria, mas não deviam ser poucos. Ele parecia muito diferente dos corredores que eu conhecia, contando os nuiens para cada mísero implante de ligação neural. Provavelmente, era empregado de alguma corporação. Provavelmente da Renraku mesmo. Com certeza, ele tinha visão aprimorada, pois conseguira ver a arma no meu bolso esquerdo... E reflexos acelerados também, pois desviara da faca com calma que eu joguei quando ainda estávamos no bar.

Ele sumiu. Não o via mais lá embaixo, será que desistira? Levantei-me devagarinho, porém estaquei surpresa ao ouvir uma voz ao meu lado.

- Procurando alguém, docinho? Eu pude ouvir sua respiração lá de baixo.

Ele estava flutuando ao meu lado. Botas antigravitacionais, um absurdo de caras e só disponíveis em catálogos secretos. E obviamente também comprara sentidos aguçados. Entreguei-me, e descemos juntos.

- Muito bem. Agora vamos, que seu pai está ansioso por vê-la.

O sorriso cínico dele me irritou. Eu parecia derrotada, né? Estava andando na frente, parei. Olhei nos olhos dele, e em um movimento rápido, o beijei profundamente na boca.

Uma das regras para a sobrevivência na rua é jamais misturar negócios com prazer. Não é uma questão de simples ética. Elevação de adrenalina e libido não combinam com certos ciber-implantes ligados. Principalmente, reflexos acelerados e sentidos aguçados. O resultado é uma pane no sistema.

Meu captor caiu no chão, os circuitos em choque. Ele pensou que eu era uma menininha mimada que fugiu de casa por rebeldia. Não sabia que as aparências enganam? Não me preocupei mais. Em pouco tempo, alguém viria socorre-lo. E eu voltei para o mundo das sombras, que eu escolhera como lar.

O rei está morto...Viva o Rei!

- Esta é a maior descoberta dos últimos dois milênios! Uma nave-tumba da civilização perdida dos Alinontes! E nós, terrestres, fomos os primeiros a encontra-la! Isso irá matar os arbussianos de inveja.
Minha companheira preparava-se para abordar a misteriosa nave que surgira nos nossos sensores poucos dias atrás. Eu não estava muito excitado com a idéia. Primeiro porque não sou um arqueólogo espacial como ela, e segundo porque não gosto do pensamento de que iremos violar uma tumba, seja ela uma nave ou não. Chamem de arcaica superstição, não ligo. Um homem pode ter seus pudores.
- Você vem ou ainda está com medo de “fantasmas”?
Tanilke sempre debochara do meu medo.Eu não ligava. Achava – como ainda acho – que não nos custa nada deixar os mortos em paz. Mas o salário como piloto da nave de pesquisa arqueologia Champollion era tentador demais. E como eu poderia desconfiar de que iríamos encontrar uma nave-tumba logo de cara?
A contragosto, vesti meu uniforme espacial. Não sabíamos como poderia estar a atmosfera dentro da nave. Fechada há cinco mil anos, provavelmente não seria saudável arriscar entrar desprotegido.
Nos teletransportamos para a central de comando. Os computadores, alimentados por uma bateria auto-recarregável, altamente radioativa, mostravam suas luzes difusas. Não havia outra iluminação. Senti um calafrio, como se algo gelado percorresse minha espinha. Na penumbra, vi Tanilke se aproximar de um painel e digitar algumas ordens. A claridade aumentou, e vi uma malha de imensos corredores. Dirigi-me, inconsciente, ao corredor mais central, o que fez minha parceira ficar surpresa. Seguimos caminho.

Nas paredes, esculpida em hologravuras delicadas e detalhistas, estava a história do homem que mandaram construir a nave. Segundo minha amiga, era um dos últimos reis de uma das primeiras dinastias imperiais dos Alinontes. Vivera longamente e fora sobre seu domínio que o Império atingira sua máxima extensão. Porém, ao envelhecer, adoecera gravemente. Nenhum dos médicos conseguiu descobrir o que causara a doença, que deformara tanto o corpo quanto a mente do soberano. Quando a morte o buscara, fora um alívio para todos e seu filho assumira, mantendo a prosperidade do reino. Uma estranha sensação de dejá-vu me assaltou ao ver as gravuras e ouvir a explicação dela. Um ódio inexplicável pelos médicos me tomou, no entanto este não era nada comparado ao que senti pelo filho e sucessor do morto. Sacudi a cabeça.
As gravuras terminavam exatamente no final do corredor. Uma imensa porta bloqueava a passagem. Não que fosse empecilho para minha jovem amiga. Ela desbloqueou o canal de comunicação, ligando os amplificadores. Entoou uma sucessão de notas, agudas, que eu reconheci como uma fórmula mágica. Um eco inexplicável se ouvia, como se mais alguém cantasse junto.
Todos os meus sentidos gritavam para que eu saísse dali. Infelizmente, o contrato é claro. Eu tinha que acompanhar a equipe – no caso, Tanilke – e auxiliar no que fosse possível.

Entramos na câmara fúnebre. Ali, a escuridão era total, menos por uma claridade azulada que saía de um objeto de metal ricamente trabalhado. O sarcófago de Artrouewy. Feito com o alumi-silicato, tão comum no hemisfério norte de Alinon, e tão raro no nosso hemisfério sul. Só os melhores artesãos eram capazes de trabalhar bem aquele metal. Um momento de fria lucidez me assaltou. Aqueles pensamentos não eram meus. Foi quando me dei conta que a arqueóloga lia as inscrições no sarcófago. Tentei gritar para que ela não terminasse. De alguma maneira, eu sabia o que era aquilo. Um encantamento de ressurreição.

Mas tarde demais. Quando falei, não era mais com a minha voz. E o fiz em uma língua estranha, repleta de assovios e sons agudos.

1 de mar. de 2005

Alma Carioca

Eu canto o Rio. Mas canto o Rio que eu conheço e que meu pai escolheu.
O Rio em que meu avô morreu.

Tive dois namorados no Meier, um em Inhauma.
Uma grande amiga em Anchieta, outra na Pavuna.

Meu eterno professor mora nas Laranjeiras.
No meu segundo grau, ia muito na Praça da Bandeira.

Em Agua Santa, mora meu ex-orientador.
De Bangu pra Praça XV, só fui de parador...

Minha mãe morou em Sulacap e no Flamengo.
Uma tia, que é paraguaia, tem casa em Realengo.

Meu padrinho mora na Barra da Tijuca,
Mas foi na Rua Ceará que eu aprendi a jogar sinuca.

Vila Isabel, Grajaú, Andaraí,
Del Castilho, Todos os Santos, Cachambi...

Marechal Hermes, Lins, Engenho de Dentro,
Deodoro, Magalhães Bastos, Bento Ribeiro,
Urca, Gavea, Copacabana e Ipanema...

Isso é o que eu conheço do Rio de Janeiro.