13 de dez. de 2005

Cerejeira

Depois da guerra, nada sobrou. Ando por minha cidade procurando um sinal de vida, uma cor diferente do cinza de chumbo do inverno atômico que já dura dois anos.

Sem perceber, chego ao Jardim Municipal. Lá, no meio das outras árvores, rainha sem reino, está nossa cerejeira. Onde gravamos nossas iniciais, em algum dia de uma primavera que não mais voltará.

Pois você morreu no primeiro ataque dos invasores, na frente de batalha, queimado até não sobrar nada. E da cerejeira, sobrou o tronco. Onde estão as folhas verdes e brilhantes? Perdidas em um verão pretérito.

Encosto a cabeça na árvore e me deixo cair ao chão, qual folha nas manhãs de outono de minha lembrança.

27 de nov. de 2005

Como nos tornamos Fogo?

Como nos tornamos fogo,
Escravos de um pequeno desejo?

How we became fire? - Moonspell


As chamas consumiam os últimos fios do teu cabelo.

Como foi que me perdi do caminho escolhido, por ver em tua boca a promessa de algo mais?

Em que momento tua presença tornou-se mais importante do que qualquer coisa?

Em que encruzilhada do destino eu vi os teus cabelos ruivos?

Disseste ser salamandra, dona do Fogo e dos seus domínios. E amei-te mesmo assim. No meu estúdio alquímico, conjurava demônios, e atravessei os limites do Plano flamejante onde moravas.

De início, fez-me promessas e aumentou meu conhecimento. Eras espectro de chamas nas sombras do meu feitiço de invocação.

Encantaste-me. Com teus olhos de fogo, teus cabelos como o cobre, a voz que queimava minh’alma. Tua visão brilhava em meus sonhos, perseguia-me enquanto estava acordado. Sequer tentei resistir, forçar-me a desvanecer tua figura. Joguei meu espírito em tuas chamas.

Queria mais, desejava possuir teu corpo que não existia. Incorporal, etérea, eras Salamandra, rainha e espírito do Fogo.

Dediquei meus estudos, meu tempo, minha riqueza a meu único objetivo. Abraçar teu corpo e consumir meu desejo em tua carne quente. Deveria criá-la, fazer tua essência imaterial passar dos planos elementais e tornar-se matéria.

Dias, meses, anos. Consumi minha vida na vontade insana de saciar minha vontade de ti.

Não foi em vão.

Uma noite de chuva opressora, calor sufocante. Moldei as formas no barro, fiz os encantamentos devidos. Convoquei-te e fiz a proposta. Teu sorriso faiscou a tua resposta. Porém, antes de me deixar começar, fizeste uma advertência. Tua estada no meu plano seria curta. Em seis meses, deixarias de ser barro e tornarias ao fogo, que era tua casa.

Vivi esses dias imerso no queimar da matéria que fiz para ti. O desejo ardia nos dois, tornando-nos escravos e senhores um do outro.

Hoje, o prazo findou-se. Teu último beijo ainda estava quente nos meus lábios, meus braços guardavam a sensação do teu calor. Vi a frágil existência que eu criara sendo consumida pelas chamas que te reclamavam.

As chamas consumiam os últimos fios do teu cabelo.

Por que saí do caminho escolhido, ao ver em tua boca a promessa de algo mais?

Quando senti tua presença mais importante do que minha vida?

Em que encruzilhada do destino eu segui os teus cabelos ruivos?

No meio do meu estúdio, o fogo era glorioso. Tua face refletida nele. Dei os passos necessários, e novamente nos abraçamos.

Mas já não era a essência do fogo que se fazia carne. Era meu corpo que se entregava às chamas.

Foi assim que nos tornamos Fogo.

21 de ago. de 2005

Nova versão do Canto de Luar!

Meu site de cara (literalmente) nova!:)

Espero vossas visitas!

1 de ago. de 2005

Morgana fala...


Saio das águas do lago com a espada nas mãos. Não iria deixar nosso tesouro nas mãos dos adoradores do deus morto. Na noite fria, as brumas me envolvem como se me reconhecessem.
Não consigo chorar, os rios que escorrem por minhas faces não são lágrimas. Mas meu irmão, rei e amante, está morto. E com ele, o mundo que conheci, amei e lutei até o fim para preservar. Pois aquele que nascera para ser nosso líder, que deveria nos fazer triunfar sobre os cantadores de missa, nos traiu.

Somente eu sei como ele morreu. Ninguém mais saberá. Continuo andando, sem sentir dor, frio ou cansaço. É tarde demais para todos nós, depois do que aconteceu há tão pouco tempo


Era uma tarde gloriosa, os invasores haviam sido finalmente derrotados. Artur, líder dos bretãos, bradava alegremente, cantando a sua vitória. Os soldados o imitavam, saudando os seus deuses. Eu sorria e gritava junto quando aclamavam a Deusa, da qual sou sacerdotisa.
A alegria foi interrompida. Uma pequena comitiva se aproximou de Artur. Patrício, bispo da Irlanda, e a rainha pediam a palavra. Ao meu lado, o velho druida franziu a testa. Os nossos soldados, incluindo o meu filho com o rei, perceberam, parando as salvas. Minutos depois, Artur, sério, virou para as tropas, anunciando que a partir daquele momento, em agradecimento pela vitória, a Bretanha seria cristã, e os antigos deuses deveriam ser esquecidos.

Ao anoitecer, eu e meu filho acompanháramos o Merlin em seu encontro com Artur. Meu irmão sequer abriu a boca, pois o druida começou a despejar seu discurso de ódio e maldição.

- Você, que nos deve tudo; você, a quem seguimos lealmente. Traidor. Você ajudou o bispo caçador de serpentes. A morte é pequena demais como castigo. Eu te amaldiçôo, Artur, filho de Uther. A não ter memória, a não ser lembrado. A partir desse dia, seu nome e o do seu povo serão mitos e lendas. Ninguém poderá afirmar quem foi você, quais foram os seus feitos, qual foi sua família. Sua mulher o renegará, seus amigos o esquecerão. E você estará morto, e a sua imagem virará névoa.

Um trovão ecoou. Mordred percebeu e pulou para salvar seu pai. Morreram juntos, como jamais estiveram em vida. O Merlin jogou a espada sagrada no lago, antes de cair morto.Como em um sonho, me joguei nas águas frias...



Quando saio do transe, tenho os músculos rijos de frio. Estou na costa da Cornualha, perto de onde nasci. O frio do metal corta as minhas mãos, devo ter andado durante dias para estar aqui. O mar estende-se aos meus pés, no fundo dos imensos penhascos. No horizonte, o céu cinzento encontra o mar. Além, quem sabe? A terra de Ys Brasil?

Pelos tempos que se foram, e pelos que virão, eu digo uma prece. Peço piedade para aqueles que adoram o deus morto. Meus pés encontram o ar e meu corpo cai, com Excalibur em minhas mãos.

14 de jul. de 2005

A dama da noite


A dama da noite
Sempre ouvi histórias sobre o perfume da dama da noite. Colhida no meio de um buquê, abria-se durante a noite em um quarto fechado, matando quem estivesse no recinto.
Lígia lembrava-me a dama da noite. Sua pele era alva como essa flor, e sua beleza escondida desabrochava a noite. E seu perfume...inebriante. Não conseguia pensar em mais nada ao senti-lo. E seu cheiro ficava em minha memória.Porém, todos os meus pedidos de casamento foram recusados. Escolheu outro.
Mas, hoje, no dia de suas núpcias, eu trouxe Lígia para mim. Colhi-a, como quem colhe uma flor. Matei-a, sim, mas o que me importa? Espero a noite, quando a minha dama irá desabrochar, matando-me com seu perfume.

23 de jun. de 2005

De ressaca

Ai. Que puta ressaca. Misturar destilados hidrolíticos marcianos com licores da Nuvem de Magalhães não podia dar certo mesmo. Droga. Melhor pegar o cartão de ignição e sair dessa espelunca...

Opa, calma aí. Cadê meu cartão? Sem ele, não consigo dar a partida no meu velho XTR 450, modelo adaptado pro Sistema Solar. Será que eu perdi em algum canto? Bom, não vai ser difícil entrar sem ele, e lá dentro eu faço uma ligação direta na corrente de neutrinos azuis...

Pó, eu devo estar olhando a escotilha errada, só pode ser. Cadê a sucata que eu deixei ali, noite passada? Ah, droga. Meu cronômetro deve estar errado. Não podem ter passado 5 dias-padrão solar desde que eu cheguei aqui, e ele diz que foram 3 semanas!

Ih, não é meu cronômetro não. O da parede está marcando a mesma data.Ai, não; perdi a data da entrega da mercadoria. Quer dizer, acho que até a mercadoria eu perdi. Vamos recapitular aos poucos, se a cabeça não rachar no processo.

Peguei a carga de urânio ultra fino, coloquei no XTR e parti em direção ao sistema solar. Era uma encomenda para as usinas termo-nucleares de Marte. Só que, ao chegar na órbita de Júpiter, senti sede e resolvi parar.

Era o bar mais falado entre os carregadores de todo o braço inferior da Galáxia. Também, merecia. Bebida boa, comida farta, e companhia à vontade. Para todos os gostos e preferências, machos e fêmeas de todas as raças conhecidas. Foi ali, no salão principal do bar que eu a vi.

Todas as marcianas são maravilhosas – seleção genética apuradíssima dos colonos e dos fetos autorizados a completar a gestação – mas aquela ali era simplesmente divina. Pele negra como ébano, cabelos brancos até a cintura e olhos com a cor das nuvens de tempestade, veio em minha direção com um sorriso nos lábios perfeitos e um copo na mão.

O que foi que ela disse? Merda de dor de cabeça. Ah, ela veio com algum papo mole desses, elogiou meus dois tentáculos laterais ou coisa do tipo.Não lembro, só consigo sentir o gosto da bebida e ...Piranha, vadia, ela me dopou. Ela deve ter pego meu cartão de ignição, roubado minha nave e...

****

Os pensamentos do arcturiano foram interrompidos pela vozinha aguda de um insetóide.

- Senhor? Senhor? Com licença, ficamos felizes que tenha se recuperado. Parece que sua raça tem uma alergia especialmente forte a algumas bebidas do sistema solar. O senhor ficou em coma durante alguns dias. Sua nave foi colocada em uma vaga a parte, e seu cartão ficou conosco para sua maior segurança.

Com um resmungo, pegou o cartão e foi embora sem agradecer. Não viu o sorriso cínico da funcionária, e não reparou que estava sem seus dois tentáculos laterais, situados atrás dos braços.

Atrás do balcão da recepção, um cartaz piscava:

“Atenção, tentáculo e outras partes corporais dispensáveis de pessoas embriagadas serão consideradas sem proprietário legítimo”

12 de jun. de 2005

Chuva de Cinzas

inspirado em uma música do Eurithimics

A chuva cai como uma memória. Os raios de sol já se apagaram há muitos anos, e a desolação que me cerca já não incomoda mais. Ando em frente, ignorando os escombros que entrevejo aqui e ali. Faz dias que não vejo nada nem ninguém vivo, mas pouco me importo. Estou viva, e para mim basta.

Caos e guerra destruíram tudo o que conhecia. Lembro de que fui jovem um dia, e que havia felicidade na dureza da vida. Não mais, não mais. Agora, se soltar um grito, nada nem ninguém irá me responder. Somente o eco triste de minha própria voz refletida nas ruínas de uma sociedade doente. Antes, escavávamos resquícios dos que vieram antes de nós. Deixamos todos os indícios para serem descobertos, mas de onde sairão os arqueólogos que irão nós desvendar?

Continuo meu andar solitário. Não sei onde estou, porém o que importa? Os nomes desapareceram junto com aqueles que lhes davam significado. Tampouco lembro do meu próprio. Sei que já tive um, que era repetido por pessoas que me amavam.

Isso foi antes. O agora é cinza e eu prossigo. Minha viagem não tem rumo, nem sentido. Foi apenas o que me restou, e é isso que sigo fazendo.

22 de mai. de 2005

As asas da borboleta

O amor machuca as asas da borboleta. Presa na roda do destino, sem direção para ir, debatendo-se...

Pedaços de cor caem como memórias que vão sendo esquecidas. Uma conversa sobre livros que nunca mais será lembrada, um filme ruim em boa companhia que jamais fará surgir um sorriso novamente.

E o amor quebra as asas da borboleta. Ainda presa, sem saber o que fazer, mas quieta.

O que sobrou das asas vai esmaecendo. Além de lembranças perdidas, são os sentimentos que passam a se entorpecer. A saudade de uma ausência mais prolongada, a alegria de um reencontro, a tristeza por uma briga.

E já não existe mais amor para terminar com as asas da borboleta. Mesmo ela desistiu de tudo e exausta se deixou cair. E finalmente escapou da roda do destino.

10 de mai. de 2005

Lua Negra

Foi a noite mais escura da minha vida. O ar estava denso e pesado, e nenhuma estrela brilhava. Kahntsi Ehnita, o xamã responsável pelo ritual das noites sem lua, havia convocado uma reunião de todos os chefes dos Hodenosaunee. Meu tio, irmão de minha mãe, estava lá representando nossa nação, caienga. Nos chamavam de ‘mohawks’, por nossa ferocidade. E o acompanhei, orgulhoso.

Não era uma reunião normal. O Conselho havia se reunido duas luas antes. Não estávamos em guerra, não era preciso reunir os chefes. Tremi na minha roupa nova. Todos esperavam algo de ruim a ser dito. Os chefes das Cinco Nações estavam frente a frente na grande fogueira. Meu tio postou-se do lado do chefe Seneca e do chefe Odonanga, como de costume, por serem as nações que fundaram a nossa união. Do outro lado, os chefes Oneida e Cayuga, os irmãozinhos. Seus clãs eram fortes, mas ainda não tanto quanto os dos irmãos mais velhos. Meu pai era filho do chefe Oneida; e me olhou com orgulho, ao me ver do lado de meu tio.

E o xamã Lua Negra entrou. Velho, como se tivesse existido desde que a Mãe de Todos criara o Grande Rio. Para nossa surpresa, não estava pintado, não usava paramentos. Vinha vestido com a sua roupa simples, se enfeitara com a sua dignidade e sua sabedoria. E, hoje, cativo daqueles que o mataram, ainda posso escutar sua voz trêmula. Lágrimas me subiram aos olhos, naquela noite. E como todos os outros, gritei pedindo auxílio da Mãe.

- Ah, irmãos, Nações das Grandes Casas! Nós, que somos irmãos das árvores, e que vivemos ao abrigo de sua sombra. Nós, que chamamos a águia de mestra e o urso de companheiro. Eis o que os sonhos me disseram!

“A Mãe me pegou pela mão. Mostrou as florestas em que vivemos, o rio que amamos e as praias de onde tiramos o peixe. Foi mais além e mostrou onde nossos outros irmãos vivem. As terras do bisão e da areia. Os lagos silenciosos. E apesar de sermos inimigos, meu coração ficou feliz ao vê-los. E olhei para a Mãe. Chorava, e suas lágrimas me levaram até o mar. Perguntei ‘Mãe, por que chora?’ E ela disse ‘Choro pelos meus filhos, todos eles. Do pequeno raccon ao grande bisão. Do pacífico dakota ao guerreiro mohawk. Tudo tem um fim, e o tempo dos meus filhos não irá durar. Vocês que correm livres serão prisioneiros. Passarão fome, terão sede e seus filhos serão mortos. E no fim, serão iguais a eles’. Não pude perguntar, pois ela me trouxe de volta. E eu acordei, e vi a noite sem estrelas. Agora sei que tudo está acabando.”

Gritamos noite adentro. Quando eles vieram, lutamos como se fossemos loucos, pois sabíamos que tudo estava perdido. Muitos morreram. Meu tio, meu pai e o xamã. Fui preso, e da minha prisão ainda ouço nossas vozes gritando. Hoje sei que naquela noite sem estrelas, todos os ‘índios’ gritaram à Mãe.