21 de fev. de 2005

A vila na areia

- Por mil relâmpagos. Juro que aconteceu assim! Vi como se fosse essa garrafa de rum! Eu e os rapazes do “Sereia do Inferno” éramos o pior bando de piratas e assassinos que já percorreu os Sete Mares. Os covardes da Marinha do rei tremiam só com a menção do nosso nome.
“Ouvimos falar de uma pequena vila de pescadores, onde as velhinhas guardavam baús debaixo de suas camas...repletos de ouro que extraíam ilegalmente. Descemos do navio em um único grande bote, na hora mais escura de uma noite sem lua, quando nem o vento fazia barulho e o mar não se movia.”
“Eram uma dúzia de cabanas de palha, espalhadas pela areia. Entramos em cada um dos barracos. Por Poseidon, cada cama de velha que achamos tinha debaixo um baú com ouro! Os imbecis que acordaram, nós cortamos as gargantas. E juro, por mil caranguejos, que somente as velhas não acordaram! Todo o ouro que conseguimos, juntamos no centro da aldeia e distribuímos entre os homens.”
“Mas a Sorte não era nossa. Um dos homens achou barris de cerveja. Todos começamos a beber e cantar. O dia amanheceu e estávamos lá, estirados, bêbados como porcos. Pois não conseguimos levantar durante o dia, e só quando chegou o anoitecer eu recobrei os sentidos. Pelos deuses do Mar, preferia ter continuado dormindo! Os miseráveis dos aldeões que matamos estavam em pé, suas gargantas abertas, vindo em nossa direção! E as malditas velhas atrás, rindo! Era uma aldeia de bruxas, amaldiçoadas sejam, cadelas, amantes do Diabo! Gritei, o máximo que podia, para que os homens acordassem!”
Nem todos conseguiram. Os que os defuntos alcançaram, eram estraçalhados ali, perante meus olhos, como se fossem carne! Lutamos bravamente, com nossas facas e punhais. Mas aos poucos os desgraçados chegavam mais perto, arreganhando os dentes em um sorriso sangrento. E as putas do Demônio, as velhas, riam! Eu e meus homens largamos os punhais e corremos, como raios, para alcançar o bote, que estava perto. Ah, mas por Belzebu, não conseguimos. Somente eu consegui!”
Em sua voz rouca e grasnida, o papagaio que ouvia a história, cantou um pequeno refrão.
- Capitão, capitão
É um covardão.
Deixou seus homens na mão.
Agora vai pra Inglaterra.
Vai virar sabão!
O velho pirata atirou a garrafa vazia no pássaro, que se desviou e continuou a cantar. O navio de bandeira inglesa, que deixara Jamestown há algumas semanas, o encontrara delirando, dentro de um bote, no meio do mar das Caraíbas. Dizia coisas sobre mortos que andavam e bruxas, e ouro puro. Não deram atenção de início, mas descobriram que era Alonso Hernandez, capitão do “Sereia do Inferno”, um dos mais perigosos piratas daquelas partes do oceano. Não encontraram sinal do navio, e concluíram que os outros deviam ter se amotinado e o abandonado. O colocaram em uma cabine, e o esqueceram lá até chegarem, quando o encontraram estrangulado com um lençol pendurado no teto.
Jamais se soube o destino do “Sereia do Inferno".

16 de fev. de 2005

Vazio

Mais um texto para a OE, que provavelmente não vai agradar

Vazio

O som não existe no vazio do espaço. As estrelas brilham, mas sua luz é
fria. Milhares e milhares de pontos luminosos no espaço.

Uma explosão no conversor de anti-matéria, uma fenda no casco da nave...
Como engenheiro, ele saiu para consertar a nave. O rasgo foi soldado, e lá
dentro o conversor voltara a funcionar.

Mas antes que pudesse voltar ao interior da nave, uma falha no imã das botas
o jogara longe da nave. A bela deusa prateada sequer reparou que ele ficara
para trás.

Flutuava, sem saber em que direção olhar. Nenhum som, nenhum calor,
nada...só uma luz fria e difusa ao seu redor. E ele, um pequeno corpo a
girar no infinito.

13 de fev. de 2005

Michelle

(Mais um mini conto, dessa vez abordando o meu tema de trabalho, de forma indireta. Não foi muito aplaudido...)

Michelle

Era um belo dia de junho, e o calor aquecia as belas terras ao redor do castelo de Châlon-sur-le-Saône, onde a corte ducal estava reunida. Michelle, a jovem princesa nora do duque João, alcunhado de Sem-Medo por sua valentia, sentia-se feliz como nunca. A doentia Paris não lhe fazia falta, pois era no campo ou na pequena cidade de Dijon que estava realmente em casa. Sua criada, uma bela jovem da região da Flandres, reparou em sua alegria.
-Feliz, senhora?
-Como não estar? Hoje, com a graça do Senhor Deus, o duque, meu sogro, regressará após ter feito a paz final com meu irmão, o Delfim Carlos. Depois de tantas mortes, poderemos viver em paz... Ou melhor, minhas duas famílias lutarão lado a lado contra os verdadeiros inimigos, os ingleses.
A criada assentiu com a cabeça. E Michelle de França continuou a se preparar para quando seu sogro chegasse. A guerra, que começara há mais de dez anos com o assassinato do devasso duque de Orleáns, dividira o país, massacrando exércitos dos dois lados.
Antes mesmo das sextas, ouviu passos do lado de fora de seus aposentos. Preparou-se para saudar seu sogro, mas quem entrou foi Felipe, seu marido. O rosto severo estava marcado por uma expressão que misturava tristeza e ódio. Olhou-a por um longo instante, antes de finalmente dizer, em voz grave.
-Senhora, seu irmão assassinou meu pai. – e saiu, sem nada mais dizer. Um de seus escudeiros, um jovem flamengo de expressão inteligente, ficou por mais um instante, como se pedisse desculpas pela atitude do novo senhor da casa, antes de fazer uma reverência e também se retirar.
Porém, Michelle deixou-se ficar ali, atônita. A morte do duque significava muito para ela. Desde que chegara naquela corte, como uma estranha de uma casa inimiga, fora acolhida de braços abertos por seu sogro. Era como se perdesse um pai... E ainda mais a expressão do seu marido, como se ela tivesse culpa dos vícios de seu irmão, que matara um homem sob uma bandeira de trégua. Lágrimas correram por seu rosto enquanto deixou-se desfalecer.

Longos anos passaram. A guerra terminou, e veio a paz. Michelle não chegou a ver a assinatura do tratado de Arras, que terminou as agressividades entre seu irmão e seu marido. Morreu no mesmo ano em que o duque humilhou o Delfim, fazendo-o ceder a coroa ao filho do rei inglês. E em seu estúdio, o escudeiro que se tornara indiciário escrevia as Crônicas de tudo que havia acontecido. Ao descrever as esposas de seu amo e senhor, n Georges Chastellain não esqueceu da jovem princesa que morreu de desgosto com a guerra que partiu a França

“Et Michelle, ma belle princesse et duchesse, qui a mourrit sans voir la paix. Son couer n’a pas se diviser comme ses pays.”

“E Michelle, minha bela princesa e duquesa, que morreu sem ver a paz. Seu coração não se dividiu como o seu país.”

2 de jan. de 2005

Sol e Chuva

(Um mini conto escrito para a Oficina de Escritores)

A chuva caia torrencialmente, encharcando suas roupas. Mesmo assim, ela não se mexia. Ficou estática, para a lápide. O cabelo pingava, as gotas grossas corriam pelo seu rosto. Alguns poderiam entrever lágrimas nos seus olhos.
Não havia nenhuma. Ela olhava a lápide e em seu interior estava feliz. Ninguém teria como saber que ali estava o homem que a aprisionara por anos a fio. Muito menos desconfiavam que o seu cadáver, enterrado naquele dia, revelaria veneno se fosse devidamente analisado. Dois dias atrás, o sol brilhava, e ela serviu café ao seu marido...com um componente a mais.
Agora, a chuva caia, molhando a terra. Porém, aos seus olhos, era o primeiro dia de sol em anos.

4 de nov. de 2004

O último soneto

(esse conto foi a minha primeira participação em uma oficina literária via web. Não agradou muita gente, só teve dois votos. Mas eu gostei dele...Por isso, ele veio pra cá...)

Escreveria um soneto. Não apenas mais um, dos muitos. Mas "o" soneto. E então ela entenderia. Sim, naquela derradeira demonstração de sua pena, finalmente revelaria seu coração. Olhou a garrafa de vinho, largada pela metade, em cima da mesa. Depois de terminar o soneto, usaria aquele mesmo líquido, escuro e cor de sangue, e acabaria com tudo. Era só misturar algumas gotas de um veneno, de preferência o mais raro e exótico possível. E teria um fim digno do seu último soneto.
Porque este seria magistral. Sua obra-prima, que o tornaria finalmente reconhecido. E que faria com que ela o amasse. Há quanto tempo a observava em silêncio, enquanto passava pela rua, sempre acompanhada por sua dama de companhia. Cabelos de ébano, pele de alabastro, olhos como o mar velados pelas cortinas de veludo que eram seus longos cílios.
Sequer sabia seu nome. Não tinha idéia de onde morava, ou o que fazia. Ela sequer sonhava que ele, pobre infeliz, existisse. Mas isso não era necessário. Ela era a sua musa, o seu amor. Seria de sua imagem, perfeita, limpa, pura, sem sequer a macula do conhecimento invasivo, que ele tiraria a inspiração para o soneto perfeito. Que seria infinitamente superior àqueles versinhos medíocres que publicava em revistas literárias, e que lhe davam o dinheiro, aquele sujo capital necessário para viver.
Levantou-se, e percorreu o quarto imundo até a janela. Na noite fria, o luar transparecia sereno, lembrando a brancura da pele dela. Sim, escreveria um soneto. O mais belo de todos. E morreria, por suas próprias mãos. Assim se vingaria de todos os que o humilharam, e também dela, que passava por sua vida, como se tivesse esse direito.
Entrou em um delírio febril. Imaginou-a de luto, chorando desconsolada, sobre seu túmulo. Em suas mãos, uma cópia do soneto, suja e amassada, manchada de lágrimas. Viu-a definhando de tristeza pelo amor que tivera sem saber. E no auge da alucinação, estava lá quando ela, em um suspiro sentido, entregou a alma, para finalmente se entregar ao seu amor.
Riu, até perder o fôlego. Começou a tossir, aquela tosse doentia que o perseguia há anos. Sentou-se na cadeira e entregou-se aos espasmos dos pulmões doentes. O velho gosto de ferro subiu a sua boca, deixando um travo amargo. Com dificuldade, levantou-se e buscou um lenço para limpar os lábios. Quando o tirou da boca, estava manchado de sangue. Outro acesso de tosse o deixou ofegante. A dor tomou seu corpo.
Abriu a pequena caixa de remédios. Pegou a dose de láudano que tiraria a dor. Mas um terceiro e mais brutal acesso de tosse fez o medicamento cair no chão. Ajoelhou-se, ainda tossindo. A vista ficou turva, sentia frio. O desespero tomou conta de si.
Não podia morrer agora, sem escrever seu último soneto.
Enquanto visualizava a sua musa, ele veio a sua mente. Completo. E ele viu que era realmente genial. Mas já era tarde para o derradeiro soneto.

17 de out. de 2004

All the world is a masquerade, made up for fools and philosophers

No baile dos loucos e filosofos, a placa dizia : Bem vindos ao mundo.
Todos os convidados usavam mascaras e as trocavam, conforme suas necessidades vãs de demonstrar falsas emoções ou pensamentos pretensiosos. Até que um convidado - até agora não se sabe se louco ou filosofo - começou a se interrogar.
Pois convivia com aquelas pessoas mascaradas, e jamais vira seus rostos. Não sabia seus verdadeiros sonhos, suas verdadeiras motivações. Olhou-se no espelho e viu que ele também possuia uma mascára. De pretensa sabedoria, que deveria instigar respeito e admiração naqueles ao seu redor, impressionados com o conhecimento que ele aparentava ter. Mas não tinha. Não lera metade do que parecia, não escutara metade do que deveria, não escrevera metade do que arrotava.
Mascara. Uma simples mascara, que encobria a verdade. E todos no salão as usavam, como se fossem seus verdadeiros rostos. Ele mesmo não se lembrava da sua fisionomia, quando não estava encoberta por aquele pedaço de ilusão.
Cravou suas unhas no rosto falso e o jogou longe. Olhou-se novamente no espelho e com um grito doloroso, correu. Em disparada, enlouquecido - agora já sabemos, era um louco - arremessou-se em direção a uma janela. O baile parou por instantes, até ouvir o baque surdo do corpo batendo em algum lugar desconhecido. Um mascarado, o rosto uma expressão da mais verdadeira respeitabilidade, sacudiu a cabeça, dizendo:"lamentável". E a música recomeçou.
No espelho, ficara gravado o motivo do desespero suicida. Pois por debaixo da mascara, o infeliz descobriu que não havia nada.
As vezes, a ilusão é mais confortável que a verdade.

5 de out. de 2004


Ana Rodrigues Posted by Hello

Quem inventou o amor?

O anúncio foi veiculado em todas as grandes redes de notícias. “Quem inventou o amor? Recompensa-se quem o achar!” Muitos pensaram que se tratasse apenas de um golpe publicitário, divulgando um novo produto erótico, ou o lançamento de um disco de canções melosas. A grande maioria não levou a sério.
Os outdoors já estavam envelhecidos, o jingle da campanha há muito ficara na memória dos mais velhos, quando aconteceu um fato surpreendente. Uma jovem alegava conhecer aquele que inventara o amor.
Foi imediatamente entrevistada por uma grande rede de televisão.
- É verdade que você alega conhecer o inventor do Amor?
- Sim, eu mesma. E por favor, é amor, sem maiúscula.
- Por que?
- Porque ele me disse que era assim. Com maiúscula, Amor fica parecendo uma coisa transcendental, fora da nossa realidade. E ele me disse que é a coisa mais comum da vida de todos nós.
- Conte-nos como foi.
- Eu estava em casa, sozinha, vendo televisão. Bateram na porta. Quando eu abri, ele estava lá.
- Ele quem?
- O amor. Você nunca o viu?
- Como assim? Como ele era?
- Ué, como qualquer amor. Ele era simples e complicado, egoísta e generoso, belo e feio, delicioso e repugnante...todo o amor não é assim?
- Assim como?
- Paradoxal, né? Aquele poeta português já dizia que é o vencedor servir ao vencido, lembra? Pois então. Ele é a derrota da vitória e a vitória da derrota.
- E o que ele queria com você?
- O de sempre, né? Queria se instalar, tornar minha vida uma bagunça...Eu recusei, disse que “não, muito obrigada, mas estou feliz assim”. Mas sabe que o bandido nem ligou? Ele disse que no fundo eu queria. E ele estava certo...
- E ele contou quem inventou o amor? - Quando eu perguntei, ele simplesmente sorriu, se levantou e me deu um beijo no rosto. Me disse que o inventor do amor estava mais próximo do que eu poderia imaginar. Sabe, até hoje não sei o que ele quis dizer com isso...

24 de ago. de 2004

A terra das ilusões perdidas

Opa, boa tarde. Desculpe incomodar, mas pode me emprestar um cigarro?

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É, eu sei que faz mal. Na verdade, eu não fumo.

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Não posso. Rinite alérgica. Sabe, os frutos da evolução humana. Doenças respiratórias crônicas na maioria da população urbana.

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Eu estou um pouco nervosa. É a minha primeira vez aqui, sabe?

...

É, e olha que pela minha idade, eu já deveria ter vindo aqui algumas vezes. A "terra das ilusões perdidas"...meio tétrico, né? Parece frontal de hospicio ou coisa do tipo...

...

Não, nem é uma em particular. Vim procurar por todas.

...

Sim...Sabe, um dia eu acordei e pensei: onde será que foram parar as ilusões da humanidade? Aí, peguei um ônibus e saltei aqui. O lugar nem é tão ruim quanto pensei, aliás...

...

Mais iluminado, com árvores. Sei lá, meio que esperava um cenário de pesadelo...

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Ninguém quis vir junto, não. Acharam besteira esse negócio. Viviam bem do jeito que estavam vivendo, para que mudar?

...

Como assim? Porque eu não fiquei lá também?

...

Ah, porque eu não estava satisfeita...Aqui é sempre frio desse jeito?

...

Hum, compreendo. Na verdade, sempre achei que faltava algo. Primeiro pensei que fosse comigo, mas cheguei a um ponto em que tinha tudo. Era plenamente feliz. Mas ainda me sentia insatisfeita. Por isso, raciocinei que só poderia estar relacionado ao resto do mundo. Daí para notar que as ilusões tinham sumido foi um pulo.

...

Pois então. Isso que é o mais engraçado. Quando cheguei aqui e fui procurar o encarregado, ele disse que as ilusões que se perdem não vem para cá. Ficam onde estavam mesmo, mas adormecidas, quase em coma, esperando uma chance de reviver. Então, vou voltar de mãos vazias.

...

Mas valeu o passeio, né? Opa, aquele é o meu ônibus. Com licença, foi um prazer.

25 de jun. de 2004

Alma minha gentil que não partistes...

Um dia me perguntaram se eu acreditava em almas gêmeas. Não pude evitar pensar em você, e responder que não tinha tido a escolha de acreditar ou não. Pois desde que você cruzou meu caminho, tive a certeza de que haviamos nos conhecido antes, em algum lugar.

Não que tenha sido “amor a primeira vista”. Não, nada disso. Lembro muito bem. Eu te chamava de “paraíba metido”, você me chamava de “bruxa”. Isso porque a gente mal se falava. Eu passava por você resmungando, ao que me respondia, me chamando de bruxa na cara-de-pau.

Não lembro porque começamos a nos falar. Busquei em todas as gavetinhas das minhas recordações. Mas deve ter sido pela pura e simples vontade. E também não sei quando foi que me apaixonei. Me dei conta quando comecei a odiar os dias em que eu sabia que não ia ver você, e a contar as horas.

Mas me lembro do dia em que soube que você, a sua maneira, retribuia. Como ia esquecer... foi a primeira vez que meu coração se quebrou. E talvez esteja quebrado até hoje. Pois foi quando nos separamos. A culpa foi minha, foi sua. Foi do Destino? Sei que a tristeza nos seus olhos refletia a minha própria. E aí eu soube. Tão tarde. Não que fosse adiantar saber antes.

Chorei. Noites inteiras. Ninguém percebeu. Pois ninguém podia perceber, ninguém iria entender...ninguém iria me desculpar, ou então, pior, ia julgar criancice. Coisas de adolescente e que tais.

E assim foi. Tentei esquecer você. E sempre que estou quase conseguindo, vem o mundo e lembra. O seu cheiro, que surge do nada, no meio da noite, saído das minhas recordações só para me assombrar. Alguém com a voz parecida, com o seu jeito...

E vi você doente. Segurei a sua mão, e olhei nos seus olhos, e senti que era a última vez. Quando me disseram que você tinha morrido, foi como se eu tivesse morrido junto. Não me disseram onde enterraram o seu corpo, não me permitiram me despedir. Mas não importa. Fechei meu coração em luto. Mesmo que os outros não percebessem, mesmo que eu estivesse rindo e namorando...meu interior sangrava.

Mas com o tempo, me acostumei a viver sem um pedaço de mim. A saber que seria incompleta para sempre. Mas mesmo assim, segui minha vida. Tive um filho, fiz amigos, me formei no que sempre quis. E você que nunca acreditou que eu realmente quisesse ser professora...

E você está vivo. Mentiram para mim. Você esta vivo, e bem. Não sei se solteiro. Não sei se sentiu minha falta. Encontraram você na rua. Só me disseram isso. Não falaram se você perguntou por mim, não falaram sequer aonde...Só isso: “encontrei Fulano na rua”.

Mas mesmo assim, fiquei tão feliz. Pareceu que o mundo abriu-se de repente. Que tudo era novo. Que eu voltara a ter quinze anos...

Não que eu ache que vamos nos encontrar de novo um dia e sermos felizes para sempre. Não. Sempre soube que não era para ser. Mas alma gêmea quer dizer outra coisa. Afinal, por mais diferentes que sejamos, por tudo o que nos separa...mesmo assim. Não tem jeito. Estou fadada a amar você, nessa e em todas as vidas.