13 de mar de 2005

Correndo nas sombras

Ele parecia ser um cara normal. Até bonitinho, com seu jeito tímido de se aproximar. Como eu ia saber que era mais um dos mercenários contratados por meu pai para me capturar de volta? Geralmente os “corredores das sombras” têm feições sombrias e não freqüentam lugares sociais. Um rapaz da minha idade, de cara limpa, bem vestido e simpático era justamente o oposto do que eu esperava.

Maldizendo-me por não ter feito um ciber-implante acelerador, dobrei uma esquina. Escondida atrás de um container de lixo, recuperei o fôlego enquanto pensava. Ele provavelmente não ia desistir fácil, já que papai oferecera uma recompensa de mais de 500000 nuiens para me ter de volta viva. Morta, acho que eu valho um pouco menos. Só por causa das aparências. A filha do presidente da Renraku Corporação perdida no meio das ruas de Seattle, vivendo de trabalhos mercenários? Isso não podia acontecer. E por isso, estou com a metade dos mercenários da Costa Oeste em meu encalço.

Uma sensação de perigo sacudiu o meu corpo. Eram os meus sentidos aguçados cirurgicamente avisando que o estranho estava vindo. E só então me dei conta de que estava em um beco sem saída. Ótimo, e agora? Olhei para cima e vi uma sacada. A parte velha da cidade ainda mantém alguns prédios antigos, o que estava sendo providencial nesse instante.

Torcendo para que minhas pernas reforçadas com prótese de silício orgânico dessem conta do recado, pulei. Consegui a custo me pendurar e subir. Logo depois, meu perseguidor surgiu e pareceu surpreso ao não me encontrar. Sorri em silêncio, buscando estar o mais parada possível, para que ele não percebesse. Não sabia quais implantes ele teria, mas não deviam ser poucos. Ele parecia muito diferente dos corredores que eu conhecia, contando os nuiens para cada mísero implante de ligação neural. Provavelmente, era empregado de alguma corporação. Provavelmente da Renraku mesmo. Com certeza, ele tinha visão aprimorada, pois conseguira ver a arma no meu bolso esquerdo... E reflexos acelerados também, pois desviara da faca com calma que eu joguei quando ainda estávamos no bar.

Ele sumiu. Não o via mais lá embaixo, será que desistira? Levantei-me devagarinho, porém estaquei surpresa ao ouvir uma voz ao meu lado.

- Procurando alguém, docinho? Eu pude ouvir sua respiração lá de baixo.

Ele estava flutuando ao meu lado. Botas antigravitacionais, um absurdo de caras e só disponíveis em catálogos secretos. E obviamente também comprara sentidos aguçados. Entreguei-me, e descemos juntos.

- Muito bem. Agora vamos, que seu pai está ansioso por vê-la.

O sorriso cínico dele me irritou. Eu parecia derrotada, né? Estava andando na frente, parei. Olhei nos olhos dele, e em um movimento rápido, o beijei profundamente na boca.

Uma das regras para a sobrevivência na rua é jamais misturar negócios com prazer. Não é uma questão de simples ética. Elevação de adrenalina e libido não combinam com certos ciber-implantes ligados. Principalmente, reflexos acelerados e sentidos aguçados. O resultado é uma pane no sistema.

Meu captor caiu no chão, os circuitos em choque. Ele pensou que eu era uma menininha mimada que fugiu de casa por rebeldia. Não sabia que as aparências enganam? Não me preocupei mais. Em pouco tempo, alguém viria socorre-lo. E eu voltei para o mundo das sombras, que eu escolhera como lar.

O rei está morto...Viva o Rei!

- Esta é a maior descoberta dos últimos dois milênios! Uma nave-tumba da civilização perdida dos Alinontes! E nós, terrestres, fomos os primeiros a encontra-la! Isso irá matar os arbussianos de inveja.
Minha companheira preparava-se para abordar a misteriosa nave que surgira nos nossos sensores poucos dias atrás. Eu não estava muito excitado com a idéia. Primeiro porque não sou um arqueólogo espacial como ela, e segundo porque não gosto do pensamento de que iremos violar uma tumba, seja ela uma nave ou não. Chamem de arcaica superstição, não ligo. Um homem pode ter seus pudores.
- Você vem ou ainda está com medo de “fantasmas”?
Tanilke sempre debochara do meu medo.Eu não ligava. Achava – como ainda acho – que não nos custa nada deixar os mortos em paz. Mas o salário como piloto da nave de pesquisa arqueologia Champollion era tentador demais. E como eu poderia desconfiar de que iríamos encontrar uma nave-tumba logo de cara?
A contragosto, vesti meu uniforme espacial. Não sabíamos como poderia estar a atmosfera dentro da nave. Fechada há cinco mil anos, provavelmente não seria saudável arriscar entrar desprotegido.
Nos teletransportamos para a central de comando. Os computadores, alimentados por uma bateria auto-recarregável, altamente radioativa, mostravam suas luzes difusas. Não havia outra iluminação. Senti um calafrio, como se algo gelado percorresse minha espinha. Na penumbra, vi Tanilke se aproximar de um painel e digitar algumas ordens. A claridade aumentou, e vi uma malha de imensos corredores. Dirigi-me, inconsciente, ao corredor mais central, o que fez minha parceira ficar surpresa. Seguimos caminho.

Nas paredes, esculpida em hologravuras delicadas e detalhistas, estava a história do homem que mandaram construir a nave. Segundo minha amiga, era um dos últimos reis de uma das primeiras dinastias imperiais dos Alinontes. Vivera longamente e fora sobre seu domínio que o Império atingira sua máxima extensão. Porém, ao envelhecer, adoecera gravemente. Nenhum dos médicos conseguiu descobrir o que causara a doença, que deformara tanto o corpo quanto a mente do soberano. Quando a morte o buscara, fora um alívio para todos e seu filho assumira, mantendo a prosperidade do reino. Uma estranha sensação de dejá-vu me assaltou ao ver as gravuras e ouvir a explicação dela. Um ódio inexplicável pelos médicos me tomou, no entanto este não era nada comparado ao que senti pelo filho e sucessor do morto. Sacudi a cabeça.
As gravuras terminavam exatamente no final do corredor. Uma imensa porta bloqueava a passagem. Não que fosse empecilho para minha jovem amiga. Ela desbloqueou o canal de comunicação, ligando os amplificadores. Entoou uma sucessão de notas, agudas, que eu reconheci como uma fórmula mágica. Um eco inexplicável se ouvia, como se mais alguém cantasse junto.
Todos os meus sentidos gritavam para que eu saísse dali. Infelizmente, o contrato é claro. Eu tinha que acompanhar a equipe – no caso, Tanilke – e auxiliar no que fosse possível.

Entramos na câmara fúnebre. Ali, a escuridão era total, menos por uma claridade azulada que saía de um objeto de metal ricamente trabalhado. O sarcófago de Artrouewy. Feito com o alumi-silicato, tão comum no hemisfério norte de Alinon, e tão raro no nosso hemisfério sul. Só os melhores artesãos eram capazes de trabalhar bem aquele metal. Um momento de fria lucidez me assaltou. Aqueles pensamentos não eram meus. Foi quando me dei conta que a arqueóloga lia as inscrições no sarcófago. Tentei gritar para que ela não terminasse. De alguma maneira, eu sabia o que era aquilo. Um encantamento de ressurreição.

Mas tarde demais. Quando falei, não era mais com a minha voz. E o fiz em uma língua estranha, repleta de assovios e sons agudos.

1 de mar de 2005

Alma Carioca

Eu canto o Rio. Mas canto o Rio que eu conheço e que meu pai escolheu.
O Rio em que meu avô morreu.

Tive dois namorados no Meier, um em Inhauma.
Uma grande amiga em Anchieta, outra na Pavuna.

Meu eterno professor mora nas Laranjeiras.
No meu segundo grau, ia muito na Praça da Bandeira.

Em Agua Santa, mora meu ex-orientador.
De Bangu pra Praça XV, só fui de parador...

Minha mãe morou em Sulacap e no Flamengo.
Uma tia, que é paraguaia, tem casa em Realengo.

Meu padrinho mora na Barra da Tijuca,
Mas foi na Rua Ceará que eu aprendi a jogar sinuca.

Vila Isabel, Grajaú, Andaraí,
Del Castilho, Todos os Santos, Cachambi...

Marechal Hermes, Lins, Engenho de Dentro,
Deodoro, Magalhães Bastos, Bento Ribeiro,
Urca, Gavea, Copacabana e Ipanema...

Isso é o que eu conheço do Rio de Janeiro.