Bullet with butterfly wings
O cientista-chefe atira um pedaço de comida, e o homem, esquecido de sua tentativa de liberdade, corre, morto de fome.
Apesar de toda a nossa raiva, somos apenas ratos em uma gaiola.
Junte cinco anos de Curso Técnico em Eletrotécnica. Misture mais quatro anos de graduação em História, e adicione dois de mestrado em História Moderna. Uma pitada de dezessete anos de leitura compulsiva, e pincele com vinte e nove anos vividos dentro de uma padaria. Decore com o começo de uma carreira na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e com ramos de doutorado em História Medieval. Sirva um quindim que acha que raciocina. Ou um doce pensante.
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Anos passaram sem que Antônio voltasse do mar sem fim. Maria de Fátima, envolta em tecidos negros, chorava seu luto olhando o azul interminável até doer a vista.
Na tempestade que arrasara tantos navios, apenas Antônio jamais fora encontrado. Nem seu corpo.
Por isso, olhava o mar, fio de esperança que corria em sua alma.
Quando viu a silhueta tão conhecida erguer-se na água, sorriu. Não reparou que a pele pendia, que as órbitas eram buracos vazios, que os cabelos eram algas amareladas.
Enquanto corria para abraçá-lo, mesmo sentindo o fedor da podridão, só pensava em como era bom tê-lo de volta.
Hoje, finalmente arrumei a casa. Pela primeira vez depois que você se foi, fiz a faxina que prometi a mim mesma.
Minha vontade foi rasgar os livros que lemos. Quebrar ao meio os cd´s com as músicas que embalaram nossas noites de amor. Amassar as contas velhas, pagas em conjunto.
Quis destruir o passado como se assim pudesse exorcizar a sua presença.
Mas preferi não.
Ao contrário, guardei tudo. Arrumei os livros na ordem que decidimos juntos. Organizei os cd’s por ordem de preferência das músicas. Até as contas velhas eu arquivei com todo o cuidado...
No fim, peguei uma folha em branco.
Nela, escrevi todo o amor, toda a raiva, toda a tristeza, todo o rancor, toda a alegria. Todos os sentimentos que alimentei por você.
Dobrei o papel em cuidadosos pedacinhos (lembra do curso de origami que fizemos juntos?). Transformei tudo aquilo em uma borboleta de papel branco.
Soprei-a da janela do 15º. andar, nesse dia chuvoso, como tantos em São Paulo.
Ela começou a cair, devagar. Como se meus sentimentos tivessem dado vida à borboleta! Ou teria sido o meu sopro?
Sei que vi o pequeno ser de papel adejar, batendo as brancas asas contra o fundo cinza.
E hoje, finalmente, nossa casa voltou a ser só minha.
Seu fantasma foi exorcizado nas asas frágeis de uma borboleta de papel branco.
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Meninos e Meninas,
Cris e Gab estão na Scarium 15, edição belissima, coordenada pela fantástica Giulia Moon.
Comprem djá!